Conversando sobre Irmãos

PENSANDO EM TER MAIS UM FILHO? 
– A decisão de ter mais filhos deve ser feita em função do desejo e disponibilidade dos pais e não pensando em uma companhia para o filho mais velho ou considerando a vontade deste; 
– A decisão deve ser tomada em conjunto – pelo casal e de maneira consciente, pois quanto maior o número de membros, mais atividades e relações familiares acontecem: será necessário dividir responsabilidades, cuidados e tarefas domésticas; 
– Não convém perguntar se o primogênito quer um irmão ou não, porque a escolha não cabe a ele, nem se prefere irmão ou irmã; 
– Contar da gravidez o quanto antes, assim que confirmada, para que a criança não fique sabendo por terceiros (ou, ainda, sinta mudanças na casa, na família ou na mãe sem entender o que está acontecendo); 
– Se a criança demonstrar por conta própria preferência por irmão ou irmã cabe explicar que nem os pais podem escolher; 
– Não criar falsas expectativas como dizer que o irmão virá para brincar e fazer companhia ao mais velho (quando o bebê nasce é incapaz de fazer isto o que pode causar uma frustração desnecessária ao primogênito contrariando a confiança depositada nas explicações dos pais); 
– Convém se organizar financeiramente, pois costumam ocorrer alterações no bem estar econômico da família. 
Qual o momento adequado e a diferença de idade ideal para “encomendar” mais um? 
Tente prever a disponibilidade do casal em termos de energias e tolerância, pois o bom relacionamento entre os filhos depende mais disto do que da diferença de idade entre eles. Para conseguir prever isto, convém saber que: 
– Crianças de até um ano e meio mais ou menos acabam tendo necessidades muito parecidas com as do bebê e é preciso ter bastante disposição para atender o que seriam “gêmeos com idades diferentes”. Se os pais ficarem inseguros quanto a isso, esperem ter certeza de que já dedicaram o suficiente ao primeiro filho a ponto de ele adquirir certa independência; 
– No segundo ano de vida a criança passa por uma fase de enfrentamentos a fim de conhecer suas vontades e possibilidades. São tempos mais desafiadores para os pais administrarem os limites sem desconsiderar a necessidade de autonomia da criança. Se os pais entenderem que são capazes de administrar essa fase juntamente com as manifestações de ciúmes em relação à chegada de um novo membro, não há motivos para receios; 
– Por volta de 4 ou 5 anos a criança já tem mais recursos cognitivos, de autonomia e de linguagem que permitem compreender melhor as explicações dos pais e participar positivamente dos cuidados de um irmão. 
A CHEGADA DE UM NOVO IRMÃO 

Na “preparação” – durante a gravidez: 
– Explicações ao primogênito: não antecipar questões, procurar usar falas simples e curtas quando ele é pequeno (até 3/4 anos mais ou menos), ser claro (não usar analogias). O excesso de informações confunde e pode deixar a criança ansiosa, pois são 9 meses de espera sendo anunciada constantemente e a criança pode não ter noção de tempo. Encarar interrogações com naturalidade sem esconder ou enganar; 
– Evitar ficar falando muito só sobre a gravidez com outras pessoas na frente do primogênito. Quando isso acontecer, procurar envolver o mais velho na conversa – pedir ajuda para contar “a história” sobre a qual está sendo falada; 
– Usar um livro para contar histórias de bebê: da gravidez ao nascimento (com enfoque para o primogênito) e mostrar fotos ou o álbum dele para ilustrar o momento conforme surgirem os interesses. A experiência da própria criança e a maneira como ela pensa o que vivencia são mais significativas do que as explicações de um adulto. Dicas de livros: “A criança mais importante do mundo” de Renata Pettengil, Larousse Junior; “E agora? Vão tomar o meu lugar?” e “Para com isso, pirralho!” de Bel Linares e Alcy, Salamandra; “Vou ganhar um irmãozinho” de Kes Gray e Sarah Nay, Panda Books. 
– Solicitar participação nos preparativos se houver interesse: arrumar as roupinhas/guardá-las, organizar a disposição dos móveis no quarto, ajudar a escolher coisas que estão sendo compradas na presença dele; 
– Incentivar a divisão de cuidados e a convivência da criança com outros adultos (pai, avós, familiares, amigos etc.). Se esperar o bebê nascer para que isto seja feito, a criança responsabiliza diretamente a diminuição de atenção e a divisão de cuidados ao bebê. 

Durante a internação: 

– Se possível, permitir que a criança escolha onde e com quem quer ficar (em casa com o pai, em alguma avó, amigos, etc.); 
– Incentivar que quem estiver cuidando do mais velho proporcione atividades interessantes/envolventes (como passeios) que ocupem o tempo em que há o afastamento dele com a mãe; 
– Ao despedir na saída para a maternidade (se ocorrer): procurar passar tranquilidade sem enfocar o acontecimento para não aumentar a ansiedade, explicar como vão ser as atividades da criança e se despedir como de costume, naturalmente; 
– Programar visita no hospital se os pais desejarem que ela aconteça: que seja num momento em que a mãe possa estar preparada/arrumada para receber o mais velho carinhosamente, em que não haja cuidados médicos que possam impressionar (soro/medicação intravenosa, injeção, hora do banho etc.); 
– Algumas famílias oferecem um presente ao mais velho “dado pelo bebê”: acreditamos que isto pode dar a entender que o presente substituirá o afeto e atenção diminuídos a partir de agora, entretanto, por outro lado, se for dissociado o valor material do presente de maneira que este envolva o contexto do evento (ex: um bebê, um(a) boneco(a), um carrinho de bebê etc.) crianças pequenas podem se beneficiar de uma brincadeira simbólica que as ajude a representar e elaborar a experiência pela qual estão passando; 
– Falar ao telefone com a mãe? Algumas crianças se beneficiam desse contato pela aproximação com a mãe, para outras ele pode ser penoso (ou para a mãe também). Se houver vontade de alguma das partes: testar e observar/sentir. 
Na volta para casa: 
– Apresentar os irmãos entre si, incentivar contato: “Quer fazer um carinho? Quer segurá-lo um pouco no colo?”. Usar a fala para os 2 interlocutores: “Olha A quem chegou, seu irmão! Olha B quem chegou, seu irmão, quer fazer um carinho nele?”; 
– Organizar “a casa” antes que o primogênito chegue: arrumar os remédios da mãe e os horários, as refeições, os espaços para que não aconteça “confusão ou corre-corre de necessidades” atrapalhando esse momento de primeiros contatos entre os irmãos ou da mãe com o primogênito (após alguns dias de afastamento); 
– Depois de feito o contato inicial entre irmãos, favorecer atenção um pouco mais direcionada ao mais velho nos primeiros minutos, deixar o bebê no colo de outro adulto ou colocá-lo um pouco no berço/carrinho. 

Amamentação: 

– Precisa de tranquilidade? Peça que o primogênito mostre algo a alguém, ou peça a alguém que o ocupe com alguma atividade em outro cômodo da casa (evitar o uso de frases em que a criança possa se sentir rejeitada ou excluída); 
– E se o mais velho pedir para mamar também? A mãe pode contar sobre a vez dele: quando ele mamou, como foi, mostrar alguma foto, quando e como ele parou de mamar (se for favorável à situação) e explicar que agora é a vez do bebê. Se ela achar que fica à vontade e lidaria melhor com a opção de deixar que ele experimente do que com a conversa, pode fazê-lo, enfatizando o caráter temporário, de experimentação. 
De volta à rotina: 
– Convidar (sem exigir) a participação e ajuda do mais velho nos cuidados com o bebê: pegar as fraldas, segurar uma pomada, ajudar a escolher roupas, estimular que converse com o bebê durante a troca, ajudar a empurrar o carrinho etc.; 
– Como reagir com os presentes das visitas? Agir naturalmente, não enfocar e nem esconder o presente dado ao bebê mesmo quando a visita não presenteia o mais velho: se ele estiver por perto, convidá-lo para ver, solicitar ajuda para abrir o pacote e para guardar o presente; 
– Como reagir diante das visitas ou de comentários de desconhecidos sobre o bebê em locais públicos? Com criatividade e jogo de cintura falar algo com ou sobre o mais velho: incentivar que ele participe um pouco das conversas, conte ou mostre algo do bebê e/ou de si mesmo; 
– Contar com apoios: divisão de tarefas entre os pais (o pai tem papel fundamental de suprir as diferenças de atenção com os filhos e de colaborar nas tarefas domésticas, promovendo o bem estar da família), colaboração da escola e de avós, familiares, assistentes, amigos e até de médicos ou especialistas. 
Comportamentos esperados do mais velho durante a gestação do irmão ou até cerca de 2 anos após o nascimento (mais fortes logo após o nascimento ou quando o caçula apresentar conquistas): 
Crises de raiva/ciúmes/birras/frustrações (choros intensos, enfrentamento agressivo com os pais etc.), travessuras, aumento na dependência (em tarefas que antes fazia com autonomia ou no emocional – resistência à separação com a mãe, pedido de colo), insegurança, comportamentos imitativos do bebê (fala infantilizada, pedido de colo, regressão nos hábitos de higiene – volta a fazer xixi na cama, usar chupeta), problemas com o sono, pesadelos, aumento de introversão, criação de amigo imaginário. 
Podem ocorrer alterações em outros âmbitos familiares também, como, por exemplo, no bem estar econômico da família e no estilo disciplinar dos pais – por mudança de valores, pelo cansaço ou pela (in)compreensão dos comportamentos dos filhos. 
Como lidar com essas alterações de comportamento? 
O ciúme indica que há ligação afetiva, é natural, é uma maneira de protestar contra a falta de atenção sentida. E essa divisão de atenção acontecerá daqui para frente – será necessário que a criança se adapte, mas ela pode precisar de um tempo para isso. É importante ser paciente em certa medida: permitir as regressões de forma compreensiva e a expressão dos sentimentos direcionando para que ela seja feita verbal e não fisicamente. Mas deve-se estabelecer limites: agressões não podem ser permitidas quando o bebê é incapaz de se defender: é necessário repreender e acolher, por exemplo: se o mais velho dá um apertão no bebê, você pode dizer com firmeza: “não, machucar o irmão não pode!” e contenha-o fisicamente (sem abuso de força), ou seja, não tire o bebê de perto, segure e fique próximo dos dois e depois de dado o recado, procure mudar o foco da conversa. 
Quando a agressividade é voltada para os pais: evite permanecer estacionado em seus sentimentos de culpa e de rejeição. É importante demonstrar seu amor, dar atenção e apoio e procurar compreender suas reações. Entretanto, dependendo da idade da criança (especialmente entre 2 e 4 anos) o enfrentamento é característico também da fase de seu desenvolvimento (e não apenas do ciúme): quando os pais ficam incomodados com as atitudes dos filhos e percebem o pedido de contenção é importante que demonstrem as fronteiras: “eu não gostei disto que você fez” (nunca diga “não estou gostando de você fazendo isso”, “você está um chato!” ou “que feio! você está feio fazendo isso”). 
A compreensão que indicamos aqui diante dos comportamentos de ciúme, opositores ou regressivos é baseada no respeito ao momento da criança, no favorecimento da expressão de suas emoções (para acolhimento e direcionamento) e na observação de que, geralmente quando a criança percebe que pode ser aceita fazendo o mesmo que o bebê, retorna ao seu lugar. Entretanto, isso não significa que essas manifestações devem ser incentivadas desta maneira – permitir que a criança se expresse não implica nos pais voltarem a falar de maneira infantilizada com ela, por exemplo. 
RELACIONAMENTO ENTRE IRMÃOS 
vale desde o início e para sempre, mas, especialmente, nos primeiros 2 anos de vida do caçula: 
– Programar momentos exclusivos, a sós, de relacionamento: pai com a mãe, do pai com cada filho, da mãe com cada filho (anunciar antecipadamente esses horários de encontro); 
– Individualizar cada filho: cada pessoa é única, não existe ninguém igual no mundo. É impossível tratar os filhos igualmente. As relações são diferentes e as formas de amor também – não se deve alimentar sentimentos de culpa pelos sentimentos diferentes que nutre por cada um dos filhos – assim eles também não o farão. Procurar valorizar cada um em suas características. Considerar também a diferença de idade: estabelecer rotinas conforme a necessidade de cada um. Evitar comparações: se for preciso, falar abertamente das diferenças sem emitir juízos de valor – encará-las abertamente pode beneficiar as crianças; 
– Não depreciar diferenças de sexo (menino x menina, exemplos: “A Maria está uma delícia, menina é muito mais gostoso que menino, muito mais tranquila, carinhosa, apegada à gente, já o João sempre foi muito agitado, um bagunceiro, moleque é peste! Nem liga pra gente.” ou: “Ai Maria, para de frescura, não aguento mais você choramingando!… Homem é muito mais fácil, olha o João – não tem esse monte de “nhén-nhén-nhém”); 
– Evitar interferir no relacionamento entre os irmãos: eles devem construir a relação entre eles em função de seus contatos e interesses e não em função das expectativas dos pais. Diante de brigas deixe que resolvam sozinhos na medida do possível: “não sei quem está certo ou errado – vocês que descubram” e saia de cena. Caso contrário, um sempre acreditará que foi lesado na interferência dos pais e isso pode favorecer a rivalidade com o irmão. Crianças que evitam entrar em conflito com os irmãos para poupar os pais de desgosto tendem a não formar uma ligação afetiva próxima quando adultos. 

O momento é composto por uma combinação de fatores e de experiências. Nenhuma dificuldade ou mesmo conquista é exclusiva de algo ou de alguém. Nem sempre é possível considerar todos esses fatores, algumas vezes tudo é surpresa. Vale lembrar que independente da experiência e das dificuldades que possam vir a ser encontradas, havendo amor, cuidado e limites todos sairão bem, mais cedo ou mais tarde. 

“Aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal.” 

”Os métodos são as verdadeiras riquezas.” 
(Friedrich Nietzsche) 
Bibliografia: 
BRAZELTON, T. Berry. Momentos decisivos do desenvolvimento infantil. São Paulo: Martins Fontes, 2002. 
CAMACHO, Suzy. Guia Prático dos pais. São Paulo: Paulinas, 2007. 
CAPELATTO, Ivan. Diálogos sobre afetividade. Campinas: Papirus, 2007. 
GESELL, Arnold. A criança dos 0 aos 5 anos. São Paulo: Martins Fontes, 1996. 
LOBO, Luiz. Escola de Pais: para que seu filho cresça feliz. Rio de Janeiro: Editora Lacerda, 1997. 
PEREIRA, Caroline Rubin Rossato; PICCININI, Cesar Augusto. O impacto da gestação do segundo filho na dinâmica familiar. Estud. psicol. (Campinas), Campinas, v. 24, n. 3, Sept. 2007 . Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-166X2007000300010&lng=en&nrm=iso>. Acessos em  10  Abril.  2012.  http://dx.doi.org/10.1590/S0103-166X2007000300010.

As crianças estão crescendo… e a mamadeira?

        “Do ponto de vista estritamente pessoal, acho que as mamadeiras, quando administradas, nunca deveriam ser utilizadas após os dois anos e meio, o que não quer dizer que devam ser dadas até essa idade”.
“Acabamos por achar que a mamadeira é a maneira mais fácil para administrar alimentos aos filhos. As mães acham que a mamadeira se presta à administração de verdadeiros coquetéis, em que são misturados leite, chocolate, farinhas, frutas, ovos, verduras, óleo de fígado de bacalhau (…)”.
Como a criança de 1 a 5 anos tem necessidades calóricas menores, come menos e tem um apetite caprichoso (de quem ainda está descobrindo os alimentos e seus sabores), a mamadeira é a tábua de salvação – algumas crianças alimentam-se só com mamadeiras, e algumas chegam a receber até cinco delas por noite e, pasmem, as mães vão ao consultório queixando-se de que seus filhos têm falta de apetite, por não comerem nada durante o dia (também pudera!).
“Por que a mamadeira é nociva depois de certa idade? Por vários motivos. Seu efeito mais visível é sobre os dentes. Pelo estrago produzido nos dentinhos, podemos identificar a maioria das crianças de mais de 3 anos que toma mamadeira ao deitar, principalmente, quando ela contém açúcar. Após certa idade, geralmente após trinta meses, a mamadeira é uma das causas mais frequentes da tosse noturna crônica. A criança, a partir dessa idade, começa apresentar dificuldade em deglutir na posição deitada e passa a aspirar gotas de leite, que são responsáveis pela tosse, a qual, geralmente, começa após a mamadeira. O leite ingerido na posição deitada fica estagnado no cavo e vai atuar como uma substância irritante, causando aumento das adenoides e das amídalas, podendo ser uma das causas de amidalites e adenoidites de repetição. O aumento das adenoides pode levar à obstrução das trompas e, consequentemente, as otites recorrentes. As crianças mais velhinhas que tomam mamadeira têm muito mais sinusites. A superproteção, com seu cortejo de efeitos nocivos sobre a criança, é uma das maiores responsáveis pelo uso prolongado das mamadeiras. Por isso, somos contra o uso imoderado e prolongado das mamadeiras.”
“O ideal seria que uma criança mamasse no peito e, após os 6 meses, ingerisse alimentos semi-sólidos, utilizando-se da colher, e aprendesse a tomar líquidos no copo, evitando-se o uso da mamadeira.”

LISBOA, A. M. J. O seu filho no dia-a-dia: dicas de um pediatra experiente. Brasília: Linha Gráfica, 1997. pp. 23-25.

Pai e Mãe

“… não mais compete à mãe “informar” ao marido dos momentos em que ele deve estar disponível. Espera-se que os maridos participem. Hoje, o problema talvez se configure mais como uma rivalidade entre pai e mãe, e, talvez de bloqueios que esta última coloque à participação do pai. Trata-se de sentimentos universais, presentes em todos os adultos que cuidam de crianças. Quanto mais você cuida de uma criança, mais a quer para si. Esse sentimento natural de posse faz com que os pais se tornem inconscientemente competitivos entre si. Cada um vê os erros que o outro comete à medida que tenta desajeitadamente aprender seu novo papel de pai ou de mãe. Uma vez que aprender a cuidar de um filho significa aprender através dos erros, e não dos acertos, quando cada um dos pais está disposto a identificar-se com o outro, e a dar-lhe apoio, os cuidados acabam por enriquecer-se com benefícios múltiplos para a criança. 
Os bebês não precisam que os pais concordem entre si. Desde muito cedo, eles aprendem a esperar coisas diferentes do pai e da mãe. O que eles realmente precisam é de um sentimento de que os dois pais participam intensamente de suas vidas, além da constatação de que o ambiente em que vivem não está saturado de tensões. A competição pelo bebê é um sinal de atenção e carinho, e não de divergência. Em vez de permitirem que esses sentimentos de rivalidade os deixem com raiva um do outro, os pais precisam usá-los para proceder à divisão dos trabalhos – e trabalho é o que não vai faltar.” (p.513-514).
BRAZELTON, T. Berry. Momentos decisivos do desenvolvimento infantil. São Paulo: Martins Fontes, 1994.

“A vida com nosso filho com trissomia!

Depoimento de Jean-François extraído do livro “Além da Deficiência Física ou Intelectual Um Filho a Ser Descoberto” de Francine Ferland. Londrina: Lazer & Sport, 2009.
“Logo que casamos, em 1985, nós combinamos, Anne-Marie e eu, de ter pelo menos três filhos. Depois de anos de esforço e uma viagem a Portugal com o objetivo de reavivar o lado latino de minha esposa (ela é de Portugal), Anne-Marie ficou finalmente grávida. Devo eu agradecer às divindades portuguesas, quem sabe? Enfim, nosso sonho tomou forma no interior dela.
Este sonho continha todos os desejos de juventude que nós não pudemos infelizmente completar: nosso filho teria a maior coleção de livros possível e a chance de poder cursar os estudos universitários que o colocaria em uma profissão valorizada. Resumidamente, queríamos o melhor para ele, como todos os novos pais.
Durante a gravidez, acontecia de falarmos, entre outras coisas, da escolha de seu nome. Eu queria uma menina, então não tinha nome para meninos. Anne-Marie não tinha preferências por uma menina ou por um menino. O que interessava para ela é que a criança tivesse saúde. Ah! A saúde. Quantas vezes falamos disto: O que você faria se o bebê tiver uma deficiência? Difícil resposta, mas eu sempre encerrava falando que seria melhor não tê-lo.
Já estávamos no mês de março e os nove meses de espera chegaram ao fim. Um pequeno problema surge neste momento: o bebê está virado! Minha mulher deve ir ao hospital para que o médico coloque o bebê na posição adequada. Estranho! Eu pensava que todos os bebês voltavam ao lugar automaticamente. Não, disseram, isso acontece às vezes. Está bem, esperemos os acontecimentos. Três dias mais tarde, Anne-Marie me chama e fala: Querido, venha rapidamente, tenho contrações com intervalos regulares. Pronto. Serei pai em poucas horas! Que devo fazer? Preparar as compressas de água fria? Não, isto é nos filmes. Comprar fraldas? Não, eu já comprei cinco pacotes esta semana. Comprar flores? Ah, isto não, eu nunca ofereço flores para Anne-Marie, ela vai pensar que fiz qualquer coisa e estou pedindo desculpas.
Depois de todo esse estresse, chego em casa e Anne-Marie me recebe com estas palavras: relaxe, meu querido, não será em cinco minutos que vou parir. Que alívio! Faço uma rápida refeição e saímos de casa em torno de 19 horas para irmos tranquilamente ao hospital. Eu me lembrarei sempre da claridade da lua nesta noite. Era mágico. Chegando ao hospital, estaciono meu carro a uma certa distância para andarmos como o médico havia aconselhado em nosso encontro pré-natal. Mas exagerei, foi preciso andar 30 minutos antes de chegar!
No serviço de obstetrícia, ligam Anne-Marie em diferentes aparelhos, de repente minha mulher deu um grito e foi um choque para ela e para mim descobrir a força de seus gritos durante as contrações! Mais ou menos à uma hora e quarenta e cinco minutos, uma enfermeira nos falou que estava na hora de ir para a sala do parto. Você vem? Ela me perguntou. Não senhora,  falei, prefiro ir ler um bom artigo que vi em uma de suas revistas. Ufa!… Eu e o meu coração tão sensível nos salvamos, eu e ele fomos para a sala de espera, onde todas as revistas tinham mais de dois anos…
Por volta das duas horas, ou seja, quinze minutos mais tarde, vejo chegar o médico. Ele tem um rosto de enterro e não de alguém que vem anunciar uma boa notícia. Ele senta a meu lado e começa falando que é um menino. Depois ele faz uma pausa antes de falar em inglês: Your child´s got Down syndrome. No final da frase, ele toca minha perna, se levanta e sai da sala de espera me deixando com aquelas palavras.
Um processo se inicia imediatamente na minha cabeça: o que é Síndrome de Down? Esforçando-me para procurar uma resposta, me lembro que se trata de um retardo intelectual. Vou em seguida à procura do médico. Eu o encontro em frente ao berçário e me apresso em perguntar se realmente se tratava de um retardo intelectual. Ele me olha e fala Yes, se vira e sai em outro corredor. Ele me deixa de novo sozinho, diante de uma situação para a qual eu não estava preparado.
Em seguida, vou ver Anne-Marie, que ainda nada sabia. Vendo minha expressão, ela pergunta imediatamente: A criança tem  um problema? Sim, tem um retardo intelectual. Nós nos olhamos, depois falamos do bebê sem lágrimas, sem revolta. Em seguida, o silêncio, de duas pessoas abaladas… Levei os efeitos pessoais de minha esposa comigo, lhe dei boa noite e saí do hospital. Entrando em meu carro, comecei a chorar. Porque nós? Fizemos alguma coisa que não fosse correto? Depois destas perguntas, eu começo a amaldiçoar a vida, e também a minha mãe que me colocou no mundo e depois todos os próximos que tinham filhos sem nenhuma deficiência. Toda minha raiva acontece aí, enquanto nove meses de sonhos se vão.
No retorno à minha casa, abro imediatamente uma enciclopédia médica para saber sobre Síndrome de Down (É conhecida como trissomia do 21. Antigamente chamavam de mongol às pessoas que apresentavam essa síndrome). Que erro! O texto era muito negativo e sem esperança nenhuma: é importante falar que a enciclopédia era de 1977! Eles optaram por uma foto de uma pessoa não muito bonita para confirmar o que falavam. Com o coração completamente partido, me deitei. Em meu sonho, estou ainda muito atrapalhado, mas inconscientemente eu tinha dado um grande passo aceitando a criança como sendo minha.
Até o momento, este mal-estar permaneceu enter minha mulher e eu, agora devo dividir com minha família e meus amigos. Imagine um pouco o cenário, pegar o telefone, ligar para sua família para que digam Parabéns Jean-François, como você deve estar feliz! Então, devo contar esta história que gostaria tanto de esquecer. A primeira pessoa com quem entro em contato é minha sogra. Ela não compreende nada do que está acontecendo. Como nosso filho tem todos os seus membros e parece estar em boa saúde, ela não vê onde está o problema. De fato, o problema está no olhar dos outros e no silêncio. Este silêncio tão pesado quando ninguém nada diz, porque cada um está tão abalado quanto nós.
Os três dias passados no hospital são os piores. Ver todos estes pais felizes com os seus bebês enquanto nós estávamos tão infelizes. Temos direito também a uma visita em regra de quase todo o pessoal do hospital. Não para aumentar nossa moral, mas para nos dizer que seria melhor deixarmos Karl. Segundo eles, estas crianças não são nada na vida. O mais difícil para nós é que não sabíamos nada sobre a trissomia do 21 e as únicas pessoas capazes de nos ensinar nos mostram somente o lado negativo da história.
Felizmente, depois do nascimento do Karl, jamais foi pensado, nem por Anne-Marie nem por mim, abandonar nosso filho. Nunca nos perguntamos, nem mesmo abordamos o assunto, a decisão veio naturalmente. Karl era nosso filho e era, antes de tudo, um ser humano que só pedia para ser amado.
Sempre me lembrarei do último dia no hospital. Neste dia, uma enfermeira veio nos ver. Vocês sabem, disse ela, estas crianças podem fazer muito, esqueça o que os médicos dizem. Ela nos estendeu um pedaço de papel no qual estava escrito o endereço da Associação Montreal para a Deficiência Intelectual. Estas palavras e o pedaço de papel foram o ponto de partida de uma nova vida. Logo no dia seguinte fui a esta associação. A recepção é das mais agradáveis. Encontro muitos livros sobre a Trissomia do 21 e, além do mais, tive a sorte de encontrar uma jovem mãe que tinha também um menino como Karl. O que mais me surpreendeu é que esta mãe ri e parece tão feliz quanto qualquer outra.
Nas semanas seguintes conhecemos a Trissomia do 21 (aprendemos que se trata de uma aberração cromossômica desde a concepção que designa um estado e não uma doença) e vamos buscar ajuda, pois ajuda existe. Karl tem apenas um mês quando começam suas sessões na terapia ocupacional, que consiste em exercícios físicos para ajudar a desenvolver seu tônus muscular. Três meses mais tarde, uma educadora especializada do centro de readaptação se apresenta em nossa casa, a fim de estabelecer conosco um plano de intervenção. Estes programas de intervenção precoce permitem estimular ao máximo as crianças com uma deficiência para ajudar a desenvolver um potencial que nós acreditávamos antes inexistente.
Enfim nossa vida retoma o ritmo. Várias pessoas que encontramos muitas vezes nos dizem como somos bons de cuidar tanto assim de nosso filho e quanto isto deve demandar nosso tempo, mas não! Cuidamos de nosso filho como fazem os outros pais. Os programas de estimulação (em torno de 30 minutos por dia) não demandam mais tempo do que a educação das outras crianças. Tudo o que devemos fazer é brincar com Karl. Quando ele tem de fazer os exercícios para aprender a engatinhar, o ajudamos colocando uma toalha abaixo das axilas. Quando ele tem que aprender a transferir um objeto de uma mão para outra, multiplicamos os exercícios utilizando o seu brinquedo preferido. Nada muito complicado! O único mérito que temos é de ser muito pacientes. É necessário repetir sempre e recomeçar o mesmo movimento mais de uma vez, mas que orgulho quando Karl consegue o movimento!
Os meses se sucedem e a vida segue seu curso. Nossas famílias se adaptam bem a Karl tanto quanto nós. Experimentamos uma perfeita felicidade até o dia que devemos enfrentar a sociedade pela primeira vez. Karl tem um ano e meio, e pensamos que seria importante para ele e para os outros que ele frequentasse uma creche comum. Lá ele poderia ser estimulado pelas outras crianças e aprender a viver em grupo seguindo regras. Isto permitiria a outras crianças conviver com uma criança com deficiência e descobrir a beleza da diferença.
Para fazer a matrícula de Karl, procedo da mesma maneira que outro pai, me dirigindo às creches de meu bairro. Após cinco contatos, nenhuma aceita meu filho quando eu falo que ele tem uma Trissomia do 21. Não tenho nem tempo de descrever meu filho Karl e muito menos de falar sobre minhas expectativas.
São nestas situações que nos ferimos. Pois, depois de tudo, nossos dias se desenvolvem como em outras famílias, com alegrias e tristezas. Acabamos por esquecer a trissomia de Karl. Entretanto, quando nosso filho é recusado em um espaço público pela sua deficiência, a sociedade nos lembra cruelmente sua diferença. Entretanto, se me olho no espelho, vejo um pai como todos os outros pais e quando olho Karl, vejo um ser humano como todos os outros. A única coisa que o distingue é uma deficiência intelectual que o restringe em algumas aprendizagens.
Felizmente constato, desde o nascimento de Karl, que a sociedade evolui lenta mas seguramente, e isto graças à sensibilização que é feita com pessoas com deficiência. Hoje Karl tem três anos e sua alegria de viver é contagiosa. Ele anda sem dificuldades, repete muitas palavras (começou os exercícios para aprender a falar) e compreende facilmente as ordens. É uma criança especial, que adora as festas familiares, a dança e principalmente as batatas fritas do McDonald´s. Creio que ele prefere elas a mim! Frequenta uma creche comum há um ano (que eu descobri sem querer a alguns quilômetros de casa) e faz enormes progressos principalmente no plano social. Do nosso lado, minha esposa e eu decidimos ter um segundo filho. Desde abril, Karl tem uma irmãzinha, Rebecca. E é um amor louco entre os dois! Veja, a vida continua…”

Tempo presente o tempo todo. Você sabe aproveitá-lo?

Acreditar na vida, acreditar nos sonhos… Passar o tempo ou fazer parte dele? Quem disse que o tempo não é nosso amigo? Quem nunca pediu para o tempo passar depressa, ir devagar ou que em alguns dias fosse mais longo… 36, 48 horas…
Gosto de participar da passagem do tempo. Quanto mais ele passa, mais experiente eu fico. Acredito que essa seja uma verdade. Se olhar para trás posso ver o quanto já aprendi com o tempo. Ele pode intensificar ou amenizar uma situação, isso é de grande valia. Acredito que não todas, mas algumas pessoas já nascem apaixonadas por aquilo que se dedicam a fazer e o tempo só faz isso aumentar. Esse é meu caso. Nasci apaixonada pela educação, não dos grandes, mas dos pequenos. O tempo me levou à descoberta do trabalho na educação infantil. Tempo para ouvir e escutar, tempo para olhar e observar, tempo para ensinar e aprender…
Na minha profissão é assim: cada coisa precisa de um tempo para acontecer. Tempo presente o tempo todo. Gosto que o tempo passe. Ele me ajuda a deixar marcas, marcas que permanecerão por muito tempo, quem sabe a vida toda. Na educação é assim, criança e tempo, um precisa do outro. Estão sempre entrelaçados, amarrados. Em alguns momentos muito tempo, em outros, pouco demais e quando olhamos, já passou. Por isso, é preciso realizar o trabalho escolhido com paixão, saber aproveitar os momentos realmente. É tempo de olhar para trás e ver quantas marcas já foram deixadas e pensar naquelas que ainda serão traçadas. Faça parte do tempo… viva, ame, sonhe… O tempo passa…
Ana Paula Ferreira
Coordenadora 

Pais, filhos e seus espaços

Trecho do livro “Como educar meu filho?” de Rosely Sayão

“Mãe quer saber tudo a respeito do filho, mãe imagina que pode compreender o seu filho melhor do que ninguém, mãe quer que o filho seja feliz e se dê bem na vida, mãe quer proteger o filho de todos os riscos e perigos, mãe acha que deve dar ao filho tudo o que ele precisa, mãe quer que o filho seja uma pessoa dessa ou daquela maneira, e muito mais…

E o filho, o que quer? O filho quer viver a própria vida e, para tanto, mais cedo ou mais tarde vai ter de se livrar da mãe, que tanto quer dele, que tanto quer para ele. É, o filho é tirado da mãe e da família pela vida, esse é o fato, e quem primeiro representa essa vida que o filho vai viver por conta própria é a escola, são os professores.

Quando uma mãe leva seu filho pequeno à escola pela primeira vez, não vê a hora de ter o filho de volta em casa para saber das novidades. E, assim que encontra o filho, logo ataca com a pergunta fatal: ‘Como foi na escola, filho?’. A resposta vem quase sempre seca e curta: ‘Bem’. Não era bem isso o que a mãe queria ouvir. Ela queria saber o que ele fez e o que não fez, com quem conversou e com quem brigou, se brincou e se gostou, o que e como a professora falou, e muito mais… Coisa de mãe. Mas o filho não abre a guarda, segura seus primeiros passos dados longe do controle da mãe. Sinal de vida sadia essa reação!” (p.200)

“Bem vindo à Holanda”

 Depoimento feito em 1987 por Emily Perl Kingsley e extraído do livro “Além da Deficiência Física ou Intelectual Um Filho a Ser Descoberto” de Francine Ferland. Londrina: Lazer & Sport, 2009.
“Frequentemente me pedem para descrever o que representa a educação de uma criança com incapacidade, de maneira que as pessoas que não viveram esta experiência possam compreender e imaginar o que ela representa. Isto lembra um pouco o que segue:
Esperar um filho é como planejar uma bela viagem… para Itália. Você compra muitos guias de viagem e faz os melhores planos: o Coliseu, o David de Michelangelo, as gôndolas de Veneza. Você aprende algumas frases úteis em italiano. Tudo é muito excitante!
Enfim, após meses de preparação febril, o grande dia chega. Você faz as bagagens e parte. Depois de algumas horas, o avião aterrissa e o comandante do avião anuncia: “Bem-vindos à Holanda”.
“Holanda?”, você fala. “O que quer dizer com Holanda? Eu comprei uma passagem para a Itália. Estou certa de estar na Itália. Toda a minha vida tinha o sonho de conhecer a Itália”. Mas teve uma mudança de plano no voo. Você aterrissou na Holanda e é lá que você deve ficar.
Eles não te levaram para um lugar horrível, nojento, sujo, onde há peste, fome e doenças. É só um lugar diferente.
Você deve, portanto, sair do avião e comprar novos guias de viagem. Deve aprender uma nova língua. Você conhecerá novas pessoas, que nunca teria encontrado de outra maneira.
É somente um lugar diferente. É um ritmo mais lento que a Itália, menos exuberante também. Um tempo depois de sua chegada e depois de recuperar o fôlego, você olha ao redor e começa a reparar que a Holanda tem moinhos de ventos, tulipas… que a Holanda tem até Rembrandt!
Mas todos que você conhece vão para a Itália ou vem de lá e não cansam de falar que fizeram uma viagem maravilhosa. Durante toda sua vida, você dirá: “Sim, é pra lá que eu queria ir; foi o que planejei”.
Esta dor não passará jamais, jamais, jamais… porque a perda de um sonho é uma perda muito significativa. Mas se você passar sua vida reclamando de não ter aterrissado na Itália, você poderá nunca estar à altura para apreciar as coisas muito especiais e bonitas… da Holanda.”  

A cultura do preferido

Para quê perguntamos às crianças qual é a comida preferida delas, qual é o melhor amigo ou até a “namoradinha”?
Para conhecê-las melhor? Para treiná-las a identificar seus gostos, vontades e predileções? Para cultivar o “especial”, dar algum destaque ou importância?
Realmente é uma delícia sentir-se especial e porquê não atribuir importâncias às coisas e pessoas que nos causam satisfação? Entretanto, me pergunto se não estamos apenas satisfazendo uma necessidade adulta de destacar e de conhecer. Qual o sentido de ficar adiantando o mundo adulto, competitivo e sexual (de formação de casais – namoros)? Não seria a infância suficiente em si? Precisamos ficar preparando-os para este mundo adulto? Como podemos esperar, assim, que eles o transformem, que construam e vivam num mundo melhor*, que nos superem se insistimos em reproduzi-lo exatamente na fase de vida humana em que tudo é novo, tudo é descoberta?
Além disso, ainda questiono: 
Se minha comida preferida é macarrão, provavelmente vou querer comê-lo quase todos os dias… não ficarei enjoado? O preferido perde a graça? Ou não deixarei de experimentar por longo tempo o risoto?

Se meu amigo preferido é o Fulano, não ficarei triste demais no dia em que não puder conviver com ele? Ou não deixarei de conhecer o Ciclano? Não ficarei “dependente” da amizade do Fulano em detrimento de minha habilidade de ser social? E se ele desgostar ou se encher do interesse que tenho por ele?

Se “escolhi” a Beltrana para ser minha “namoradinha” porque gosto muito dela e sinto o mesmo pelo Fulano, seria ele meu melhor amigo ou meu “namoradinho”? E se o “namoradinho” da Beltrana for o Ciclano, ou a amiga preferida dela a Fulana de tal modo que ela não corresponda à preferência que tenho por ela?
Tenho também que escolher um pai preferido, uma avó preferida, um sapato preferido (que logo não me servirá mais)? 
Conseguirei substituir com facilidade as importâncias que dou?
Quanta confusão ocupando quem tem muito a brincar e descobrir!…
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* Aliás, esta expectativa de mundo melhor já não seria baseada na nossa necessidade de um mundo mais feliz, saudável, menos violento etc.? O mundo da criança é gostoso, alegre ou triste, preocupante?
Mariella Guerrini 
Psicóloga Escolar

“Mãe desnecessária” – texto de Márcia Neider

Temos um projeto de Psicologia na escola com grupos de pais. Um deles, de mães do G1, trocou esse texto. Compartilho com vocês. 
“A boa mãe é aquela que vai se tornando desnecessária com o passar do tempo. Várias vezes ouvi de um amigo psicanalista essa frase e ela sempre me soou estranha. Até agora. Agora que minha filha
adolescente, aos quase 18 anos, começa a dar vôos-solo. Chegou a hora de reprimir de vez o impulso natural materno de querer colocar a cria embaixo da asa, protegida de todos os erros, tristezas e perigos. Uma batalha hercúlea, confesso. Quando começo a esmorecer na luta para controlar a super-mãe que todas temos dentro de nós, lembro logo da frase, hoje absolutamente clara. Se eu fiz o meu trabalho direito,
tenho que me tornar desnecessária.

Antes que alguma mãe apressada venha me acusar de desamor, preciso explicar o que significa isso. Ser ‘desnecessária’ é não deixar que o amor incondicional de mãe, que sempre existirá, provoque vício e dependência nos filhos, como uma droga, a ponto de eles não conseguirem ser autônomos, confiantes e independentes. Prontos para traçar seu rumo, fazer suas escolhas, superar suas frustrações e cometer os próprios erros também. A cada fase da vida, vamos cortando e refazendo o cordão umbilical. A cada nova fase, uma nova perda é um novo ganho, para os dois lados, mãe e filho. Porque o amor é um processo de libertação permanente e esse vínculo não pára de se transformar ao longo da vida.

Até o dia em que os filhos se tornam adultos, constituem a própria família e recomeçam o ciclo. O que eles precisam é ter certeza de que estamos lá, firmes, na concordância ou na divergência, no sucesso ou no fracasso, com o peito aberto para o aconchego, o abraço apertado, o conforto nas horas difíceis.

Pai e mãe – solidários – criam filhos para serem livres. Esse é o maior desafio e a principal missão. Ao aprendermos a ser ‘desnecessários’, nos transformamos em porto seguro para quando eles
decidirem atracar.”

Medos!?

“Medo de subir, gente
Medo de cair, gente
Medo de vertigem
Quem não tem
(…)
Só a bailarina que não tem”
(Trecho da música “Ciranda da Bailarina” )
Quais medos as crianças têm? 
Medo do coelho da páscoa? Medo do Beto? Medo de cachorro? De barulho? De cair? De se machucar? De altura? De escuro? De ficar sozinha? De monstros, bruxas e fantasmas? De estranhos? Do novo? De ser machucada? Do desconhecido? Do que não se sabe? De perder – alguma coisa ou alguém? Da distância? Da morte? De briga, agressão? De fracassar? Dos seus potenciais – que assustam, surpreendem? Da autonomia? Da responsabilidade? 
Como as crianças reagem diante dos medos?
Gritam? Fogem? Recuam? Evitam? Escondem? Pedem ajuda de alguém? Chamam a atenção? Pedem colo? Choram? 
Quando os medos são normais?
Quando os medos são automáticos, reflexos de defesa? Quando é preciso tomar cuidado? Quando eles acompanham o desenvolvimento das crianças? Quando eles lhes garantem a certeza de não ter que enfrentar situações para as quais ainda não tem recursos? Quando eles retratam a sensação de impotência? Quando eles defendem daquilo que não se sabe, não se conhece, que pode surpreender, assustar, impressionar? Quando eles servem como proteção para novas habilidades descobertas – ou muito poderosas ou que ainda não estão bem dominadas? Quando eles ajudam a aprender, a ganhar força, a superar? Quando eles seguram para que não se cometa exageros? 
Quando eles são exagerados? Quando eles limitam, impedem que se conheça ou curta novas coisas, experiências ou pessoas? Quando eles não passam, não são superados? Quando eles ficam e se intensificam? Quando eles devem nos preocupar? Quando precisamos pedir ajuda de algum profissional? 
Como reagimos diante dos medos de nossos filhos? 
Com constrangimento? Com exagero? Superprotegendo? Intensificando-os, incentivando-os, dando credibilidade aos medos? Fugindo, controlando ou evitando a situação ao invés de permitir que as crianças desenvolvam seus próprios recursos para controlar seus próprios medos? Dando conselhos ou instruções de como a criança deve reagir ou de como esperamos que ela consiga superá-los? Pressionando as crianças a vencer seus medos, a enfrentar seus desafios?
Com calma? Respeitando? Dando apoio, conforto, confiança, suporte? Compreendendo? Ouvindo atentamente? Permitindo que eles possam comunicar seus medos e preocupações? Contando que é natural sentir medo e ter preocupações, mesmo que elas não tenham fundamento? Elogiando e incentivando quando demonstrarem coragem? Acompanhando a criança a enfrentar situações sem ficarmos muito agitados nem nos envolver muito? Sugerindo que eles perguntem aos outros como lidam com seus medos? Contando sobre nossos próprios medos e como os resolvemos, superamos? Fazendo com que eles percebam suas capacidades e deem conta de si mesmos? Lembrando-os de situações ou de medos que eles mesmos já superaram? 

Se nunca tivéssemos perguntas a fazer, teríamos medos?

Se sempre tivéssemos dúvidas, arriscaríamos?

Se sempre tivéssemos certezas, aprenderíamos?