Comer… Andar… Morder… Falar… São fases do desenvolvimento!

“A criança é feita de cem.
A criança tem cem mãos,
cem pensamentos,
cem modos de pensar,
de jogar e de falar…”
Loris Malaguzzi

Na gestação humana passamos por diferentes fases, são noves meses de intenso desenvolvimento e conquistas. Deixamos de ser simplesmente um feto, passamos a nos tornar seres. Não são raras as perguntas para futura mamãe: Como o bebê está? Os exames estão bem? Qual é o sexo? Qual será o nome? Sendo assim, mesmo antes de nascer, a criança já exerce seu papel na sociedade, já está inserida em um núcleo social.

Os questionamentos biológicos neste estágio são os que mais nos preocupam, temos atenção redobrada para que a gestação siga tranquila dentro da normalidade, sem maiores temores. Até que é chegado o momento mais esperado, o encanto do nascimento acontece. Finalmente a criança estará efetivamente no seio de toda sua família e exercerá seu papel social com toda amplitude.

No início aparecem vários desafios para os pais e o bebê, estes são superados um a um, logo surgem outras questões e assim por diante, sempre surgirão desafios e superações. Afinal, o mundo e a aprendizagem são deste modo, uma nova etapa a cada dia.

Se observarmos o desenvolvimento dos pequenos, veremos que desde muito cedo as crianças já apresentam sua individualidade, mesmo vivenciando o desenvolvimento humano que passa por fases já determinadas. O que realmente muda é como cada criança irá vivenciar, explorar e superar cada uma dessas etapas. Sempre lembrando, uma fase superada é significado que logo outra começará ou até mesmo já se iniciou.

Muitos são os momentos de prazer que vivemos juntos com nossas crianças, ficamos extremamente envolvidos com cada uma de suas proezas, queremos viver intensamente estes momentos. Buscamos informações de como poderemos auxiliar em cada fase do desenvolvimento: Como ajudar na alimentação? Poderemos amparar nos primeiros passos? Poderá se machucar? Como agir sem desencorajar as conquistas já realizadas? E, igualmente seguimos meio expectadores, meio atuantes e até inseguros.

Acompanhar a vida de uma criança é um bombardeio de emoções. As crianças estão sempre em busca de novas descobertas e os adultos em busca de oferecer o que há de melhor para seu desenvolvimento, e sem dúvida esta é nossa função. Desde muito pequenas as crianças apresentam a necessidade de explorar os objetos, o ambiente e enfim o mundo que a cerca. É nessa exploração que as crianças percorrem um caminho para uma experiência sensorial e seu desenvolvimento no processo cognitivo. Cabe então a nós adultos proporcionarmos para as crianças um ambiente seguro, para que essa exploração ocorra de maneira significativa, como destaca André Trindade. “Não vale a pena tentar fazer seu filho andar ou falar antes da hora, nem evitar que ele cresça. Tudo tem seu tempo e cabe a nós acompanhar as crianças nessa evolução.” Em meio de uma avalanche de descobertas as crianças ainda bem pequenas precisam adequar seus conhecimentos dentro das expectativas sociais, aprender a interagir consigo mesmas e com o outro. Vamos ressaltar que essa não é uma tarefa fácil, se pensarmos bem muitas vezes, até hoje, passamos por acontecimentos que nos levam à reorganização destes conhecimentos.

A fase da mordida está inserida dentro de todo este contexto, as crianças irão morder primeiramente para explorar os sentidos, para entender a que mundo pertencem, quais as possibilidades que as outras pessoas apresentam a ela e o que ela pode apresentar ao mundo. Com o decorrer desta exploração (mordida) nós adultos damos sentido social para estes atos e, sem intenção, demonstramos nossa atitude para as crianças. Observadoras, as crianças acabam interiorizando esta ação e passam a utilizar também este recurso (mordida) para se comunicarem, já que muitas vezes isso ocorre quando as crianças ainda não possuem a oralidade em sua plenitude. A busca da criança pela comunicação nos permite discorrer sobre a importância da socialização e da interação para o desenvolvimento, neste momento, também em procura de expressar suas vontades e frustrações, a criança cria novo significado para a mordida observando a reação da outra criança e se alcançou o que desejava. Quando estão em contato com outras crianças e adultos, passam a construir novas relações e conhecimento de mundo, avançando em suas percepções e construções.

Portanto, se é nossa função zelar pelas crianças nas mais diferentes fases do seu desenvolvimento, devemos também ter clareza que a FASE DA MORDIDA é realmente uma FASE, até mesmo com conceitos biológicos. Compreender este fato, nos ajuda a achar a melhor maneira de agir e interagir com a situação e com as crianças envolvidas. “Quanto mais nós soubermos acerca dos aspectos herdados da individualidade de uma criança, melhor poderemos conseguir adequar o ambiente às suas necessidades.” Gesell.

No decorrer de alguns fatos encontraremos diversas situações que farão surgir novas dúvidas. Provavelmente perguntaremos: Por que algumas crianças mordem e outras não?

Não teremos a resposta definitiva, mas podemos dizer que realmente é o perfil de cada uma assim como algumas comem bem outras não. Mesmo o aprendizado ocorrendo por meio da imitação, a mordida muitas vezes é uma ação instintiva e tanto a criança que morde como quem é mordido necessitam de ações para resolução. Frequentemente, quem morde está vivendo um conflito interno, ainda não achou outras maneiras de se comunicar, precisa de ajuda e modelo para que possa ampliar o repertório de resolução, para tanto, são necessárias intervenções neste aspecto e uma ação conjunta da família e escola. Não existe fórmula certa, afinal a aprendizagem é uma construção subjetiva, neste sentido, incentivar a fala da criança é o recurso mais potente. Assim, as crianças passam a atribuir significado de respeito mútuo, entendendo a funcionalidade da oralidade utilizando-a como forma de comunicação e, aos poucos, irão se responsabilizando pelos seus atos. Deste modo, as crianças entenderão que usar o recurso da mordida como resolução não é o mais adequado.

Ainda em contraponto existem as crianças que são mordidas, nas entrelinhas estão pontuando que também precisam ter modelos para criarem repertório de defesa, ou até mesmo já perceberam que deste modo tem atenção exclusiva de um adulto ou dos amigos. Precisamos atender as necessidades do momento, mas nós adultos temos que avaliar qual a real situação, tendo o cuidado de não criarmos maiores ansiedades nos envolvidos.

Quando a criança vivencia a fase da mordida (por mais que nos incomode) tem a oportunidade de compreender melhor os modelos de resolução e ampliar seu repertório social. Entender a fase da mordida sem maiores temores ajuda, acima de tudo, as crianças a criarem segurança para se desenvolverem.

Camila Zamian Martini
Apoio no projeto N. P
Profª Grupo 4
Mãe

Bibiografia
GESSEL, Arnold.  A Criança do aos 5 anos. 5º ed. São Paulo. Editora Martins Fontes, 1999.
TRINDADE, André. Gestos de cuidado, gestos de amor. 2º ed.São Paulo. Editora Sumus Editorial, 2007.