Acolhimento

ACOLHIMENTO

“O acolhimento é um método de trabalho complexo, um modo de ser do adulto, uma ideia chave no processo educativo.” Staccioli, 2013, p.25[1]

Um novo semestre se inicia trazendo um horizonte de possibilidades para as crianças – significâncias vêm chegando! Aproveitando o ensejo, desejamos compartilhar com as famílias discussões de longa data sobre o tempo e a escuta dedicados à infância debruçando-nos, agora, no termo “acolhimento”.

Referimo-nos a acolhimento como uma postura de vida, uma competência relacional educativa – não apenas uma atitude voltada aos primeiros dias da vida escolar de uma criança ou aos primeiros momentos de uma rotina diária escolar, mas uma atitude de disponibilidade para encontrar-se com o outro – trata-se do desejo de sustentar uma sensibilidade aberta a uma relação educativa.

Convidamos os adultos enquanto educadores, sejam professores ou familiares, a criarem um espaço interno rico de desejo para conhecer a criança. Acolher não se trata de aceitar passivamente casualidades, implica um fazer motivado para a criança – uma escuta ativa e atenta de busca por reconhecer e valorizar suas ideias, implica inclusive controlar e verificar hipóteses que construímos a respeito delas.

Pensar em acolhimento enquanto uma abordagem pedagógica de vida exige previsão, organização, ação e verificação. Para acolher, é necessário preparar o ambiente/espaço para esperar e receber, pensar nos materiais e objetos que atendem responsivamente os interesses e necessidades do outro, planejar e projetar oportunidades de diálogo – gerenciar a escuta das crianças considerando que possuem uma cultura tão própria como se pertencessem a uma tribo ou etnia diferente.

“Escutar é uma atitude que requer coragem de se entregar à convicção de que o nosso ser é só uma pequena parte de um conhecimento mais amplo; escutar é uma metáfora para estar aberto aos outros, ter sensibilidade para ouvir e ser ouvido em todos os sentidos. (…) Escutar é dar a si próprio e aos outros um tempo para ouvir.” Rinaldi, 2012, p.208-209[2]

Para o adulto ser acolhedor é imprescindível que ele potencialize sua capacidade de saber ver, ver aquilo que há de valor na criança e nas suas vivências, reconhecer o que pode ser encorajado, ver em si mesmo também o que há de mais autêntico e divergente a ser oferecido na construção de uma nova relação que inspire segurança e empatia.

Vamos exercitar o prazer de acolher as crianças, de estar bem diante do encontro com as diferenças que elas nos proporcionam, pensando-as, aprendendo-as e escutando-as como elementos de aproximação?!

[1] Staccioli, Gianfranco. Diário do acolhimento na escola da infância. Campinas: Autores Associados, 2013.

[2] Rinaldi, Carla. Criatividade como qualidade do pensamento, p. 203-217. In: Diálogos com Reggio Emilia: escutar, investigar e aprender. São Paulo: Paz e Terra, 2012.

REFLEXÃO SOBRE A PÁSCOA

A Páscoa é um evento religioso, mais precisamente cristão, que comemora a ressurreição de Jesus. Tal comemoração, ao longo dos anos, foi ganhando espaço na sociedade como um todo, independente de doutrinas ou dogmas, e sendo culturalmente transformada.

O Thema não confraterniza esta data com as crianças, por considerarmos que se trata de uma comemoração particular de cada família conforme suas crenças as quais, consideradas em contexto maior – o de uma comunidade escolar, constituem uma multiplicidade que merece respeito.

Ainda assim, pensamos uma proposta educativa baseada em valores humanos de amor, compaixão, respeito que são criticamente aprofundados em nossas práticas cotidianas – ao longo de todo o ano.

Esses valores nos convidam a propor reflexões aos pais diante do evento da Páscoa socialmente produzido – descentrado, atualmente, de seus reais sentidos simbólicos de renovação, vida, amor etc.

Gostaríamos que os familiares se conscientizassem a respeito dos valores de consumo incorporados na prática de se presentear com ovos, coelhos e chocolates. Principalmente, mantendo como maior alvo as crianças, que são dotadas de especial sensibilidade e em processo de desenvolvimento cognitivo e racional, o que desfavorece sua habilidade social de decisão crítica diante de tantos estímulos.

Deixamos aqui, uma questão a ser pensada: como seria possível recriar, renovar ou inovar um ambiente simbólico que considere os sentidos da Páscoa desprovidos de intenções exploratórias e superficiais?

ADAPTAÇÃO – A ENTRADA DA CRIANÇA NA ESCOLA

 A DECISÃO E A ESCOLHA DA ESCOLA       

A entrada da criança na escola é um momento marcante. Em primeiro lugar, é importante que a decisão de colocar a criança na escola seja tomada de maneira consciente levando em conta tanto as necessidades dos pais quanto as da criança.Bildschirmfoto 2013-02-05 um 21.51.20

A primeira infância é a fase de maior e mais rápido crescimento e desenvolvimento humano: constitui a base de sua construção enquanto pessoa e acolhe as primeiras experiências e significados do mundo. Aos poucos (e bem cedo, talvez até antes do nascimento), as necessidades das crianças vão se ampliando: além dos cuidados com alimentação, sono e higiene, as crianças precisam de oportunidades para conhecer, explorar e aprender o complexo mundo: das coisas, das sensações, das relações humanas. Escolas de educação infantil são especializadas em administrar com responsabilidade cuidados, atenção e educação, oportunidades sociais e materiais para o desenvolvimento das crianças.

Considerando estas necessidades de pais e filhos e conhecendo e concordando com os recursos físicos, materiais e profissionais da escola escolhida, a filosofia e os valores da mesma, não há motivos para que os pais se sintam culpados pela decisão. Vale lembrar que a escola jamais substituirá o afeto que vincula a criança à sua família: a família é e sempre será a principal referência afetiva de todos.

O PROCESSO DE ADAPTAÇÃO

Adaptações são parte integrante do desenvolvimento, já que as pessoas estão continuamente adaptando-se a novos momentos, ambientes e situações ao longo do ciclo vital. A cada coisa nova que aprendemos, mudamos e, às vezes, precisamos mudar o que está ao nosso redor. Vamos nos desenvolvendo entre estabilidades e mudanças, um processo contínuo e recíproco de transformações.

Quando a criança ingressa na escola são muitas novidades: novos espaços para explorar, novas pessoas para conviver, novos sons para escutar, em algum momento, até novas regras para entender. Algumas novidades podem ser imediatamente motivadoras, outras podem causar estranhamento no início. Sentimentos e comportamentos inesperados em relação à escola podem aparecer. Então, é preciso procurar pacientemente entender o que se passa, conversar e transmitir segurança. E fazer isto em parceria com a escola, trocando ideias e informações, será excelente para todos superarem, juntos, o momento. Quanto mais a criança estiver habituada e afetivamente ligada ao ambiente escolar, mais naturalmente ela poderá encarar mudanças, novidades e medos.

Cada criança e cada família tem seu próprio ritmo e seu próprio modo para se adaptar. Falamos em processo, pois se trata de um movimento gradativo que vai se construindo nas interações entre as pessoas e os ambientes.

A adaptação depende, dentre outros fatores, das características da criança, de sua idade e da fase de desenvolvimento em que se encontra; e das características dos familiares e das pessoas envolvidas no ambiente escolar. O processo de adaptação costuma ser um momento de emoções diversas, encantamentos e ansiedades para todos. Criar vínculos e uma relação de confiança demanda tempo.

A Educação Infantil é, para muitas crianças, sua primeira experiência social e exige, portanto, um grande empenho emocional de todos.

A FAMÍLIA NO PROCESSO DE ADAPTAÇÃO

Os pais podem ficar ansiosos e Bildschirmfoto 2013-02-05 um 21.51.25divididos entre a perspectiva de ver seus filhos conquistando novos espaços e, ao mesmo tempo, “entregá-los” para esses espaços “desconhecidos”.

Em linhas gerais, como os familiares podem ajudar seus filhos neste momento?

– preparar-se: sempre conversando e conhecendo bem como a escola procede diante do processo de adaptação e auxiliando as pessoas envolvidas no conhecimento de seus filhos. Sempre que forem necessárias conversas mais demoradas com a professora, pedimos que a façam na hora da saída ou agendem por meio da coordenação;

– conversar com a criança francamente sobre a escola a fim de que ela possa criar um significado positivo dela: falar sobre o novo espaço, sobre as educadoras e sobre as outras crianças, contar suas próprias experiências (dos pais) quando criança, apontar amigos e primos da criança que vão à escola, combinar a rotina do dia situando o tempo conforme a percepção da criança. Entretanto, não convém antecipar nem repetir muito o assunto para não gerar ansiedade desnecessária, visto que as crianças possuem uma noção do tempo muito particular, com uma percepção bastante diferente da do adulto;

– não criar falas expectativas, nem demonstrar ansiedade e dúvida sobre o seu bem estar no espaço. Acreditar na criança e nas possibilidades que ela tem e terá e transmitir essa segurança à criança;

– demonstrar compreensão, amor e paciência, procurando entender as emoções, o ritmo e o momento da criança;

– permitir que ela traga um objeto de apego de casa se for importante para ela;

– dar espaço para que a criança reconheça e crie o seu próprio espaço na escola: para que a criança possa conhecer e gostar da escola e das pessoas aqui presentes, faz-se necessária uma certa distância dos pais, é preciso oferecer um espaço para que o adulto de referência na escola possa conquistá-la. Esse espaço deve ser ampliado progressivamente até que a despedida possa ser enfrentada sem desvios, de forma prática e rápida, sempre com demonstrações de carinho, firmeza e confiança.

A CRIANÇA E SUAS MUDANÇAS

O processo de desenvolvimento da criança dá um salto com a entrada na escola – ela prontamente reconhece um mundo de possibilidades e experiências bem mais amplo. Sua percepção e consciência do mundo podem provocar uma tempestade de sentimentos e conseqüentes mudanças de comportamento também em casa, que envolvem dualidades tanto do reconhecimento de conquistas, confiança, auto-afirmação da autonomia, quanto de dúvidas e inseguranças. Dentre as mudanças, pode aparecer: recusa de alimentação ou mudança de apetite, excitação, agitação ou quietude, cansaço, irritação, birras, choro, apego e demonstração de comportamentos anteriores ou infantilizados. É importante que essas mudanças, que são temporárias ou cíclicas, sejam acolhidas e respeitadas – que seja oferecido tempo e paciência para que a criança supere essas questões, sem deixar de lado a certeza de que essas são mudanças que justamente impulsionarão as conquistas e desenvolvimento da criança para próximas etapas e desafios. 

A IMPORTÂNCIA DA ROTINA

As crianças têm os sentidos apurados para adquirir novos conhecimentos (elas são capazes de aprender muito mais coisas em um dia do que os adultos), e um mundo inteiro para conhecer. Ao mesmo tempo, não possuem uma noção de tempo estabelecida como a do adulto: elas se situam no tempo e no espaço de acordo com as experiências de sentidos e vínculos que criam com eles e com as pessoas ao seu redor. Assim, uma rotina estabelecida oferece segurança, tranquilidade e autonomia a elas, especialmente quando se trata do ambiente escolar, um lugar rico e variado de pessoas, coisas e acontecimentos. Quando os pais e professores organizam os horários das crianças, favorecem um bom relacionamento delas com o mundo.

Bildschirmfoto 2013-02-05 um 21.51.29A ESCOLA NO PROCESSO DE ADAPTAÇÃO

Para propiciar cuidado e educação infantil de qualidade, impõe-se o pensar na formação e na capacitação contínuas dos profissionais a fim de que estejam preparados para receber as diferentes situações que se apresentam e refletir sobre elas. Lidar com a adaptação exige aceitar as múltiplas perspectivas com que uma determinada situação é entendida/vivenciada pelos diversos participantes.

Isso pressupõe que a escola seja aberta, com clara disposição para uma relação franca e acolhedora com a família. Nesse panorama, as relações escola-família colocam-se como o aspecto central de atenção, transformando-as em grandes parceiras nos cuidados e na educação da criança. Apenas de forma conjunta é possível conduzir adequadamente o processo de adaptação à escola, por isso o acolhimento é fundamental.

A criança, para elaborar bem este processo de mudanças, precisa ter oportunidade para sentir falta da pessoa querida que está ausente, sentir-se triste, sozinha e talvez até zangada e deve poder expressar seus sentimentos de maneira apropriada. Nesse sentido, é fundamental que a professora esteja segura em saber intervir no momento certo criando uma relação afetiva de confiança, tanto com a criança quanto com os pais.

Os primeiros dias são realmente mais difíceis e cansativos, demandando maior dedicação por parte da professora. E os desafios e conquistas são organizados de forma progressiva. Aos poucos, vamos ampliando o tempo de permanência da criança na escola, o distanciamento dos pais dentro do espaço escolar e também os vínculos e referências da criança em termos de espaços, adultos, colegas e combinados.

A coordenação poderá oferecer, durante todo o processo, apoio e intermediação entre a educadora e a família.

READAPTANDO SEMPRE QUE PRECISO

A adaptação não é um processo que se encerra. Ela permanece em contínua transformação, a partir da sucessão de eventos, da aquisição de novas habilidades, da emergência de novos significados ou da construção das relações entre as pessoas. A adaptação não se restringe ao ingresso na escola, pois inclui mudanças de grupo ou de educadora, retornos após ausências, novas habilidades conquistadas, novidades trazidas pelas relações.

Sentimentos e comportamentos novos em relação à escola podem aparecer. E, mais uma vez, é preciso procurar pacientemente entender o que se passa, conversar e transmitir segurança. E fazer isto em parceria com a escola, trocando ideias e informações será excelente para todos superarem, juntos, o momento.

 SEJAM BEM-VINDOS!!!

Equipe THEMAeducando

COMPRA DE MATERIAL PEDAGÓGICO

CapturarO Thema propõe-se diariamente a promover uma educação inovadora, que se diferencia do ensino tradicional cujo foco é no professor enquanto transmissor do conhecimento.
Aqui respeitamos cada criança, sua individualidade, suas habilidades, seu modo de pensar, seu momento de vida, sua história… E maximizamos suas possibilidades de aprender possibilitando que elas vivenciem e experimentem o mundo que tem para descobrir.

As escolas tradicionais costumam utilizar, como material norteador, apostilas e livros didáticos. O Thema se dedica a bolar projetos e atividades que enriqueçam essas experiências de aprendizagem de maneira vívida, concreta e permanente.

Aqui não apenas apontamos o “abacaxi” no livro para nossas crianças, mas permitimos que elas usem todos seus sentidos para conhecê-lo. Portanto, os recursos materiais que utilizamos são vastos e dinâmicos – precisam ser criados e bem aproveitados em conjunto com nossos “construtores do saber” ao longo do ano.

*Favor confirmar presença até 17/03 identificando a criança e os nomes dos participantes.

A CRIANÇA E SEUS MEDOS

DICAS DE LIVROS INFANTIS SOBRE MEDOS:

A PRINCESINHA MEDROSA – ODILON MORAES – COMPANHIA DAS LETRINHAS
AS MEMÓRIAS DA BRUXA ONILDA – LARREULA E CAPDEVILA – EDITORA SCIPIONE
PORCO PINO EM O HOMEM DO SACO – ROGÉRIO S.TREZZA – BRINQUE-BOOK
SERÁ QUE ESTOU VIRANDO MONSTRO? – SONIA JUNQUEIRA – FORMATO
MEDO DE QUÊ? – FLÁVIA CÔRTES E IVAN ZIGG – DIFUSÃO CULTURAL DO LIVRO
TICO E OS LOBOS MAUS – VALERI GORBACHEV – BRINQUE-BOOK
TENHO MEDO MAS DOU UM JEITO – RUTH ROCHA E DORA LORCH – SALAMANDRA
QUEM TEM MEDO DE CACHORRO? – RUTH ROCHA E MARIANA MASSARANI
QUEM TEM MEDO DE QUÊ? – RUTH ROCHA E MARIANA MASSARANI
QUEM TEM MEDO DE MONSTRO? – RUTH ROCHA E MARIANA MASSARANI
EU MORRO DE MEDO DE BICHO! – BABETTE COLE
QUEM TEM MEDO DE EXTRATERRESTRES? – FANNY JOLY E JEAN-NOËL ROCHUT – EDITORA SCIPIONE
UM MONSTRO DEBAIXO DA CAMA – ANGELINA GLITZ E IMKE SÖNNICHSEN – MARTINS FONTES
BRUXA, BRUXA, VENHA A MINHA FESTA – ARDEN DRUCE E PAT LUDLOW – BRINQUE-BOOK
VAI EMBORA, GRANDE MONSTRO VERDE! – ED EMBERLEY – BRINQUE-BOOK

BOLETIM REFLEXIVO – A MENTIRA INFANTIL

“Quando a mentira dá certo, vira verdade, né?”
Definição de uma criança sobre mentira do Dicionário de Humor Infantil
(Bloch, 1998, p.111).

HISTÓRIAS (uso de nomes fictícios)

Brincando em casa, um menino chamado Daniel sujou o sofá. Quando a mãe entra na sala e pergunta o que aconteceu, ele responde que foi “um menino do 9º andar chamado Danilo que entrou lá e fez aquilo”.

Uma criança chega à escola pedindo para almoçar, pois “a empregada faltou e ela ficou sem comer nada”. Questionada pela professora, ela dá tantos detalhes que a professora resolve telefonar na casa dela. A mãe desmente toda a história. A professora volta a conversar com a criança, agora com os dados reais do acontecido. Diante da verdade, a criança acaba reconhecendo que está apenas com vontade de almoçar no Thema com os amigos.

Durante uma brincadeira, um amigo morde o braço do outro. Quando questionado sobre o que aconteceu, o menino que mordeu responde que o amigo foi mordido por um “escorpião”. Quando a educadora diz que aquela mordida não se parece com a de um escorpião, mas sim de uma pessoa, ele muda a história e diz que foi um “árabe”. Mais uma vez a criança é questionada sobre a sua história e, por fim, acaba assumindo que mordeu o amigo.

 ENTENDENDO O PENSAMENTO DA CRIANÇA

“Pensar é a arte de brincar com coisas que não existem. Pensamentos são brinquedos inexistentes” (Rubem Alves, 2013, p.6)

A criança pequena é movida pelos seus desejos. Inicialmente, apontar seus desejos e necessidades é questão de sobrevivência: “choro porque tenho fome, logo alguém me oferece alimento”. Assim, seu pensamento se torna mágico e egocêntrico. O conhecimento que tem do mundo é o mundo para ela. Tudo o que ela sabe, o que está na sua cabecinha, é a realidade e é válida para todos os outros. Falamos que a criança pequena é egocêntrica não no sentido de egoísmo, mas, de fato, porque seu pensamento é centrado nas próprias experiências e conhecimento que tem do mundo, no próprio ego. Se algo é verdadeiro para ela, então será para todos os outros. É por isso, por exemplo, que uma criança fala para alguém que acabou de conhecer: “Lembra que a Fifi gosta de tomate?”. “Mas quem é Fifi?”, responde o adulto. “Ué, a Fifi!”, como se isso bastasse. Logo um dos familiares vem socorrer explicando que a Fifi é a cachorrinha dela…

 A MENTIRA INFANTIL OU PSEUDOMENTIRA

Se a imaginação da criança é mágica, ela lhe ajuda a elaborar e aliviar suas emoções. Para a criança, basta imaginar que a solução acontecerá – foi assim, e ainda será em muitos momentos enquanto não tiver maior autonomia, enquanto depender dos adultos para solucionar seus desafios. Desta forma, imaginar inverdades lhe parece um bom caminho, talvez o único conhecido até então (portanto autônomo/independente), para transformar algo que não é agradável como, por exemplo, o sentimento de culpa. Aliás, a criança ainda não sabe diferenciar claramente nem seus sentimentos, nem suas fantasias da realidade e é por isso que é tão fácil transformar sua realidade com o simples ato de pensar algo diferente do que realmente aconteceu. Desta forma, é sabido que toda criança pequena “mente”, pois ela ainda não sabe que sua criatividade pode ser, em determinados momentos, mal vista pelos adultos. Não existe mal para ela em transpor a realidade em função de seus desejos, ela tende mais à satisfação do que à objetividade.

 MENTIRA E DESENVOLVIMENTO DA MORALIDADE

“É na proporção dos encontros do pensamento próprio com o de outro que a
verdade tomará valor aos olhos da criança.”
(Piaget, 1994, p.132-133).

Inicialmente a criança só vê gravidade na mentira conforme a reação negativa do adulto. Se para ela não há mal em mentir, o mal está no adulto descobrir. É por meio da repreensão do adulto que a criança toma para si a regra de que “mentir é errado”, sem, num primeiro momento, compreender qual a razão disto. As regras poderão ser levadas ao pé da letra até que ela tenha o desafio de praticá-las e experimentá-las na realidade por diversas vezes e de formas variadas, refletindo a respeito e contraponto seu ponto de vista com o dos outros. Por exemplo: num jogo de tabuleiro, a criança pode defender fortemente a regra de que é permitido jogar o dado apenas uma vez até que ela passe pela experiência de jogá-lo tirando apenas o número um. Isso não lhe parece justo. Mas, em outro momento, observa um colega passar por situação semelhante sem se sentir injustiçada, pelo contrário, ainda animada com a possibilidade de vencer. Ou, ainda, observa que nem a própria sorte de tirar números altos lhe garante a vitória do jogo, pois pode cair em uma casa que lhe obriga a retornar para o início do tabuleiro do jogo.

Assim, a criança vai checar e chocar suas razões, suas fantasias constantemente com a realidade de várias pessoas. E, muitas vezes, não entrará em acordo até que observe que existe um caminho comum, um caminho em que as regras podem ser universais, que é o caminho da verdade e da cooperação. Ela precisa “trazer o policial de fora para dentro” (Fraiberg, apud Brazelton, 1994, p. 409). Ou seja, a criança só terá a noção interiorizada e compreensiva da regra, só compreenderá, de fato, a ordem do “não mentir” quando puder experimentar a reciprocidade e o respeito mútuo que pressupõe o ato de não mentir: enganar alguém suprime a confiança mútua.

 COMO LIDAR COM A MENTIRA INFANTIL

“O adulto não deve perturbar a fantasia da criança, mas também não deve reforçá-la.”
(Lobo, 1997, p.281).

Se um acontecimento pode ser vivenciado e explicado pela criança de forma fantasiosa, seu sentimento não o é. Sua angústia em desapontar um adulto querido é, muitas vezes, o motivo pelo qual a criança mente. O medo e a culpa estão presentes, são reais e não devem ser desmistificados pelo adulto. Mas, se a farsa infantil não for desvendada pelo adulto, a criança irá demorar a perceber a realidade, retardando seu desenvolvimento moral. O adulto jamais deve perder a oportunidade de ensinar a responsabilidade e o respeito aos outros e a si mesma. Como fazer?

MODELO – Em primeiro lugar e mais importante está o modelo do adulto. O adulto deve ser sempre verdadeiro e honesto tanto com a criança quanto com os outros.

Deixar o bebê na casa da avó e sair de mansinho escondido para poupá-lo da despedida certamente não é um bom modelo, tampouco uma boa experiência de confiança a ser transmitida para a criança.

Pedir, cochichando e fazendo mímicas, para que digam ao telefone à “moça do telemarketing” que você não está, pode de lhe parecer justo, afinal, quantas vezes ela realmente pode te importunar? Porém, não é um bom exemplo de verdade, como a regra da verdade poderá ser generalizada para as crianças assim?

Criar explicações fantasiosas em algumas situações não é nada produtivo na educação de crianças. Às vezes somos tão infantis quanto elas na tentativa de aliviar nossas ansiedades e tensões. Dar bronca numa mesa porque “ela bateu na cabeça da criança” não a ajudará de forma alguma na diferenciação entre fantasia e realidade, pelo contrário, a confundirá, pois ela acredita facilmente nas coisas mais absurdas. Se o adulto fala que alguém está no bolso da criança ela irá procurar lá, até que se sinta boba e desconfiada.

As “brincadeiras de faz de conta” são “brincadeiras de faz de conta”, são jogos simbólicos e não “brincadeiras de mentirinha” – cuidado com os termos usados com as crianças.

NÃO AMEAÇAR – É completamente incoerente exigir que a criança não minta se a ameaçamos no dia a dia com inverdades. Não se pode esperar que ela perceba objetiva e responsavelmente a realidade se tornando fiel a ela se dizemos para “não ir para aquele lado senão o bicho papão irá pegá-la”, ou “não fugir de casa, porque o homem do saco vai comê-la”. Assim, na checagem que ela fará em suas diversas experiências descobrirá que não pode confiar nos outros e que poderá discursar fantasiosamente conforme seus interesses a fim de atingir seus objetivos.

CONTROLAR REAÇÕES EXAGERADAS – Por mais que se sinta decepcionado diante da mentira de um filho, lembre-se que ele ainda não compreende responsavelmente porque não deve mentir, sua intenção é genuinamente positiva e, talvez, o único caminho independente conhecido por ele. Evite reagir de forma horrorizada diante de uma mentira e se o fez, admita e peça desculpas. As reações destemperadas e os castigos severos levam a criança a três possíveis caminhos: consciência rígida demais, revolta ou repetição compulsiva da mentira. Procure compreender as circunstâncias dos fatos e os motivos da criança, só assim poderá conduzi-la num bom caminho.

DIÁLOGO COMPREENSIVO BASEADO NO RESPEITO MÚTUO E NA COOPERAÇÃO – Não deixe passar. Por mais engraçadinha ou corriqueira que pareça uma mentira, ela é uma boa oportunidade de conversa. Se o adulto não contrapuser a fantasia da criança com a realidade, ela manterá seu pensamento mágico e egocêntrico certa de que só há mal na mentira que é descoberta. É preciso confiar na criança demonstrando boa vontade em ajudá-la, mas sempre a aproximando da realidade, ensinando-a a entender as consequências de suas atitudes. Discuta o episódio, procure descobrir com ela as razões que a levaram a mentir, pois isso a ajudará a respeitar os sentimentos e direitos alheios. Se necessário, aplique sanções que a ajudem a relacionar atitudes com suas consequências.

REFERÊNCIAS

ALVES, Rubem. Paisagens da Alma. São Paulo: Planeta, 2013.
BLOCH, Pedro. Dicionário de Humor Infantil. Rio de Janeiro: Ediouro, 1998.
BRAZELTON, T. Berry. Momentos decisivos do desenvolvimento infantil. São Paulo: Martins Fontes, 1994.
LOBO, Luiz. Escola de Pais: para que seu filho cresça feliz. Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 1997.
PIAGET, Jean. O Juízo Moral na Criança. São Paulo: Summus Editorial, 1994.

Acesse a versão para impressão aqui: http://www.themaeducando.com.br/site/noticias/arquivos/201310231611240.04%20-%20Boletim%20SetOut%20-%20Pseudomentiras.pdf

Trabalhando com Coleções

Na Educação Infantil, o ato de fazer coleções é uma forma lúdica de aprender os números e outros conteúdos e procedimentos matemáticos, ou seja, uma fusão entre prazer e aprendizagem significativa. Para aprender, as crianças precisam brincar com os números, refletir sobre eles e, a partir disso, construir a regularidade e organização do sistema de numeração.

As coleções servem como uma importante ferramenta da professora para apresentar os números às crianças levando-as a raciocínios que envolvam outros conteúdos desta área do conhecimento como a contagem, classificação, resolução de problemas etc. Além disso, dão também oportunidade de desenvolver posturas de trabalho em grupo, organização e manutenção dos objetos, que são procedimentos importantes para a formação das crianças.

Confira as coleções dos grupos em 2013:

Berçário – Variadas (temos em sala)DSC_0145 copy

Professora Vanessa
Maternal 2.1 e 2.2 – Colheres

Professoras Amanda, Melissa e Fátima
G1 – Pedras

Professora Lisiane
G2.1 – Borrachas
G2.3 – Imãs de geladeira

Professora MarianaDSC09923
G2.2 – Canetas
G2.4 – Borrachas

Professora Janaína
G3.1 – Apontadores
G3.3 – Relógios

Professora Mariana
G3.2 – Chaveiros

Professora CibeleIMG_6814
G4.1 – Réguas

Professora Camila
G4.2 – Borrachas

Professora Ariane
1º ano – Lápis