Boletim Reflexivo Mar/Abr 2013 – Conflitos que permeiam a Educação Infantil

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O INÍCIO DA EDUCAÇÃO INFANTIL É MARCADO POR CONFLITOS FÍSICOS – MORDIDAS, EMPURRÕES E TAPAS, MAS QUANDO A ORALIDADE COMEÇA, É MAIS OU MENOS ASSIM:

 

“ELE NÃO É MAIS MEU AMIGO!”
“NÃO GOSTO DE VOCÊ, VOCÊ É UMA CHATA!”
“NUNCA MAIS VOU BRINCAR COM VOCÊ!”
“NÃO VOU TE CONVIDAR PARA O MEU ANIVERSÁRIO.”
“NINGUÉM GOSTA DE MIM. TENHO QUE BRINCAR SOZINHA TODOS OS DIAS,
NÃO TENHO NENHUM AMIGO.”

DESENVOLVIMENTO MORAL E CONFLITOS

 Em linhas gerais, o desenvolvimento moral da criança parte da percepção do mundo sob o “meu ponto de vista” até a capacidade de se colocar no lugar no outro, para, aí sim, portar-se como alguém que pertence a um grupo ou sociedade.

Nos dois primeiros anos de vida, mais ou menos, a criança busca conhecer o mundo das coisas e das pessoas por meio das sensações que eles lhes provocam. Seus conflitos se direcionam na busca pela segurança e confiança de ter suas necessidades (apontadas pelo corpo) atendidas. Nesta fase, as mordidas e os tapas, por exemplo, são nada mais do que maneiras de descobrir o mundo, de experimentar as sensações que eles provocam.

A partir de um ano e meio ou dois, adquirida a confiança, as crianças passam a descobrir seus potenciais e vontades – não é à toa que a retirada de fraldas acontece neste período. Suas disputas são por controle (e autocontrole…). Enquanto elas ainda tem a linguagem corporal mais vívida que a verbal, as disputas por espaço, por objetos e até pela própria autonomia acontecem por meio de mordidas, tapas, choros e birras.

Por volta dos 3 anos, as crianças já possuem mais recursos verbais para se comunicarem, e farão uso deles para demonstrar e resolver seus conflitos. Por isso, nesta fase, “discutem” muito: questionam e argumentam para compreender as regras de convivência. Como elas já adquiriram capacidade de simbolizar o mundo mentalmente, seus conflitos não acontecem apenas na relação com os outros, mas também consigo mesmas e aí aparecem falas do tipo “ninguém gosta de mim, ninguém é meu amigo”. Ou seja, os conflitos não estão apenas no plano concreto, mas também no plano interno, mental – das ideias e emoções. Elas ficam cheias de questionamentos para “desvendar os mistérios do mundo”. Buscam compreender os propósitos das regras e de suas próprias atitudes. Estes questionamentos vão se aprimorando até que, por volta dos 6 anos de idade, elas se tornem capazes de se colocar no lugar do outro (ao menos em algumas situações, visto que, podemos dizer, até os adultos não são capazes de fazer isto sempre).

COMO LIDAR COM CONFLITOS

 Obediência e Condicionamento x Cooperação e Responsabilidade

O objetivo da educação vai bem além da obediência – a obediência nem sempre é um valor moral. O ideal é ensinar a criança a perceber o que está acontecendo, tomar consciência dos seus sentimentos e dos do outro, expressá-los e pensar em soluções. Quando a obediência se torna um fim em si mesmo, a criança não desenvolve a capacidade de se colocar no lugar do outro ou de avaliar o que é certo ou errado, mas sim a capacidade de responder conforme a expectativa do outro. Se o outro não estiver presente, ela poderá fazer uso de sua liberdade “momentânea” para escolher o errado ou para atender sua própria vontade, assim, pode optar por cometer um erro assumindo conscientemente as consequências de tal escolha. Dar ordens e determinar as regras sem manifestar o sentido delas provoca dependência, medo e insegurança e não adequação moral e social.

A forma de abordar as crianças (com autoridade e não com autoritarismo) pode diminuir a disputa pelo poder numa relação que já é desigual. Se pedimos cooperação ao invés de exigirmos e se persuadimos as crianças ao invés de controlá-las, as encorajamos a se tornarem auto reguladoras e responsáveis.

“Escutar” os conflitos das crianças e olhar para si mesmo

Sempre escute a criança: pergunte o que aconteceu e como ela está se sentindo na busca do entendimento amplo e justo das situações. Escute sempre os dois lados de um conflito. Quando um adulto faz parte desse conflito, o exercício de se colocar no lugar da criança e de ser justo é ainda mais desafiador, pois as emoções interferem na compreensão ampla da situação. Por outro lado, se ele solicita ajuda a outro adulto com frequência, mostra à criança que não é capaz de ser justo e de enfrentar as dificuldades. Assim, ela tende a explorar ao máximo as possibilidades diante deste adulto até que ele, mais uma vez, “passe a bola” para outra pessoa. Se o adulto envolvido for o de maior ascensão emocional da criança, outra pessoa pode pedir permissão (de forma espontânea) para assumir o diálogo com a criança fazendo com que o adulto de maior proximidade emocional se retire. Assim, a criança poderá deixar de lado, por algum momento, a postura de enfrentamento ou de manipulação emocional para olhar para si mesma e recapitular o acontecido.

Se as crianças puderem ser honestas ao se expressarem por meio de palavras e atitudes adequadas, aprenderão que muitos conflitos podem ser resolvidos sem grandes tensões e que é possível conviver coletivamente de forma justa e autônoma, sem abrir mão de sua participação e de suas opiniões.

DSC_0125Importância dos conflitos

Conflitos não devem ser evitados: eles favorecem o desenvolvimento de habilidades cognitivas, sociais e afetivas da criança. É por meio das vivências adequadas de conflitos que chegamos ao ponto de “sermos indivíduos no mundo”.

Conflitos entre crianças

Quando um conflito acontece entre duas crianças, procure não “tomar partido” incentivando que as crianças pensem conjuntamente em soluções e em formas de ‘reparação’. O conflito pertence às crianças. Acredite: elas são capazes de criar soluções, basta que o adulto, em seu papel de mediador, dê espaço para isso. Depois de permitir que elas se expressem, se necessário, ajude-as com sugestões. Entretanto, a responsabilidade pela integridade física da criança deve ser assumida pelo adulto.

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Quando as crianças são irmãs, é praticamente impossível (pela frequência de conflitos e pelo envolvimento dos adultos com as crianças) que pais façam a mediação do diálogo de forma imparcial. Neste caso, eles podem ajudar a esclarecer o ocorrido e conceder completa autonomia para que elas decidam por um acordo: devem retirar-se do ambiente dizendo “agora vou deixar vocês resolverem o problema entre vocês – quando tiverem chegado a um acordo, por favor, me avisem”. Irmãos que constroem uma relação própria sem a interferência dos pais (ou seja, não se relacionam apenas em função das expectativas e cobranças dos pais) tendem a criar relações mais próximas e duradouras entre si, especialmente na vida adulta.

Coerência

A coerência nas atitudes dos adultos é fundamental, pois é difícil para a criança de até 6 anos compreender os princípios morais que regem as relações humanas se elas variam muito, se são condicionáveis. Os modelos que oferecemos ainda conferem fortes significados na construção do “ser” da criança. Ela é capaz de aprender por meio dos exemplos dos outros.

Limites

Definir e mostrar os limites é fundamental. Não grite – fale com firmeza, demonstrando amor e cuidado. Dar limite é cuidar, é oferecer segurança. A criança está apenas tentando conhecer, processualmente, este mundo misterioso e precisa de um espaço seguro para isso. Os limites a ajudam a se organizar na relação com o complexo mundo das sensações, das coisas e das pessoas. Se a criança for atendida e agir sempre em função das próprias vontades, sem reconhecer o limite que existe no seu contato com o mundo, de fato, “o mundo não gostará dela” e, provavelmente, ela desenvolverá uma baixa autoestima.

Erros e Castigos

Pedir desculpas é importante sim, mas só isso não adianta. A criança pode repetir sua atitude sabendo que bastará pedir desculpas novamente. O mesmo vale para castigos que não tem relação direta ação-consequência com o ocorrido. Ajude a criança a observar que resultados sua atitude provocou. Incentive-a a repará-los quando possível e a pensar em formas de evitá-los (não são os conflitos que devem ser evitados, mas os resultados negativos de certas atitudes). Se for necessário que a criança perceba/conheça as consequências de tais ações, aplique sanções.

Sanções

O uso de sanções educativas exige uma postura reflexiva tanto do adulto quanto da criança em relação às atitudes de cada um e suas consequências. Elas evocam o senso de reciprocidade no intuito de fazer a criança compreender o alcance de sua ação. Existem as sanções que privam a criança de algo conforme o ato cometido como por exemplo: a exclusão temporária ou permanente num grupo ou atividade, a privação de contato com um objeto mal utilizado. Outra forma de sanção é fazer com a criança que cometeu a falta algo semelhante aquilo que fez (esta sanção exige cuidado redobrado para não ser aplicada ou sentida como um mal que está sendo devolvido com outro mal). E, por fim, pode-se fazer com que a criança restitua o objeto danificado: pague, substitua ou conserte aquilo que estragou. Algumas vezes, a criança pode ser convidada a bolar estratégias junto com o adulto para reparar seus erros. As sanções não devem ser usadas para todas as situações, mas quando não foi possível demonstrar para a criança a consequência de suas atitudes e o motivo moral pelo qual não deve repeti-las.

DSC_0077Conflitos e Tempo: Calma!

Procure compreender e respeitar a fase de desenvolvimento e as necessidades da criança. Muitas vezes as crianças precisam passar por determinadas experiências mais de uma vez para entender a “lógica e o funcionamento das coisas”, até se “essas coisas” são condicionadas a fatores específicos ou não. Por isso, não se canse de repetir.

Saiba abandonar o conflito quando as próprias crianças já o fizeram. Ou o conflito já foi solucionado, ou será “retomado” num momento em que elas puderem, de fato, dar conta dele. Quando preciso, conceda um tempo para a criança assimilar o acontecido. “Colocar para pensar” não é conceder este tempo – é uma punição. Pensar é algo bom, não combina com punição. E punição não combina com educação, pois a criança está aprendendo. Se ela já soubesse o que é certo e o que é errado não precisaria estar sendo educada.

Procure ter e transmitir calma, paciência e autocontrole: se você perder a “compostura”, além de perder a razão, ensina a criança que, diante de tensões, quando não são encontradas soluções ou acordos, o melhor é apelar para métodos ou comportamentos extremos.

Agressões “corretivas”?

Não dê palmadas em crianças. Agressões não resolvem problemas, apenas geram raiva. Como você ensina a criança a não agredir as pessoas se você faz isso com ela? É muito incoerente. Se o adulto pode bater na criança porque é maior que ela e tem a pretensão de educá-la, então ela poderá bater nas crianças menores quando quiser ensiná-las algo? Você não bate no seu colega de trabalho… Respeite a criança: ela é menor e mais fraca que você, porém é um ser humano assim como o seu colega de trabalho… Como podemos ensiná-la a respeitar os outros, se não a respeitamos? Não incentive a criança a se defender de colegas agredindo-os. Isto é tão incoerente quanto castigar a criança com palmadas. Como ela pode esperar que um amigo não a machuque se a machuca em seguida? Incentive a criança a conversar, a ser firme no que fala, e transmita a segurança de que, se ela não conseguir solucionar o problema, certamente encontrará ajuda de um adulto, e deve buscá-la. Ensine seu filho a pensar, a solucionar problemas com as ideias e com atitudes adequadas e não com impulsos emocionais e corporais – caso contrário, será natural ela resolver problemas agredindo as outras pessoas ou até a si mesma.

BIBLIOGRAFIA:

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