BOLETIM REFLEXIVO – A MENTIRA INFANTIL

“Quando a mentira dá certo, vira verdade, né?”
Definição de uma criança sobre mentira do Dicionário de Humor Infantil
(Bloch, 1998, p.111).

HISTÓRIAS (uso de nomes fictícios)

Brincando em casa, um menino chamado Daniel sujou o sofá. Quando a mãe entra na sala e pergunta o que aconteceu, ele responde que foi “um menino do 9º andar chamado Danilo que entrou lá e fez aquilo”.

Uma criança chega à escola pedindo para almoçar, pois “a empregada faltou e ela ficou sem comer nada”. Questionada pela professora, ela dá tantos detalhes que a professora resolve telefonar na casa dela. A mãe desmente toda a história. A professora volta a conversar com a criança, agora com os dados reais do acontecido. Diante da verdade, a criança acaba reconhecendo que está apenas com vontade de almoçar no Thema com os amigos.

Durante uma brincadeira, um amigo morde o braço do outro. Quando questionado sobre o que aconteceu, o menino que mordeu responde que o amigo foi mordido por um “escorpião”. Quando a educadora diz que aquela mordida não se parece com a de um escorpião, mas sim de uma pessoa, ele muda a história e diz que foi um “árabe”. Mais uma vez a criança é questionada sobre a sua história e, por fim, acaba assumindo que mordeu o amigo.

 ENTENDENDO O PENSAMENTO DA CRIANÇA

“Pensar é a arte de brincar com coisas que não existem. Pensamentos são brinquedos inexistentes” (Rubem Alves, 2013, p.6)

A criança pequena é movida pelos seus desejos. Inicialmente, apontar seus desejos e necessidades é questão de sobrevivência: “choro porque tenho fome, logo alguém me oferece alimento”. Assim, seu pensamento se torna mágico e egocêntrico. O conhecimento que tem do mundo é o mundo para ela. Tudo o que ela sabe, o que está na sua cabecinha, é a realidade e é válida para todos os outros. Falamos que a criança pequena é egocêntrica não no sentido de egoísmo, mas, de fato, porque seu pensamento é centrado nas próprias experiências e conhecimento que tem do mundo, no próprio ego. Se algo é verdadeiro para ela, então será para todos os outros. É por isso, por exemplo, que uma criança fala para alguém que acabou de conhecer: “Lembra que a Fifi gosta de tomate?”. “Mas quem é Fifi?”, responde o adulto. “Ué, a Fifi!”, como se isso bastasse. Logo um dos familiares vem socorrer explicando que a Fifi é a cachorrinha dela…

 A MENTIRA INFANTIL OU PSEUDOMENTIRA

Se a imaginação da criança é mágica, ela lhe ajuda a elaborar e aliviar suas emoções. Para a criança, basta imaginar que a solução acontecerá – foi assim, e ainda será em muitos momentos enquanto não tiver maior autonomia, enquanto depender dos adultos para solucionar seus desafios. Desta forma, imaginar inverdades lhe parece um bom caminho, talvez o único conhecido até então (portanto autônomo/independente), para transformar algo que não é agradável como, por exemplo, o sentimento de culpa. Aliás, a criança ainda não sabe diferenciar claramente nem seus sentimentos, nem suas fantasias da realidade e é por isso que é tão fácil transformar sua realidade com o simples ato de pensar algo diferente do que realmente aconteceu. Desta forma, é sabido que toda criança pequena “mente”, pois ela ainda não sabe que sua criatividade pode ser, em determinados momentos, mal vista pelos adultos. Não existe mal para ela em transpor a realidade em função de seus desejos, ela tende mais à satisfação do que à objetividade.

 MENTIRA E DESENVOLVIMENTO DA MORALIDADE

“É na proporção dos encontros do pensamento próprio com o de outro que a
verdade tomará valor aos olhos da criança.”
(Piaget, 1994, p.132-133).

Inicialmente a criança só vê gravidade na mentira conforme a reação negativa do adulto. Se para ela não há mal em mentir, o mal está no adulto descobrir. É por meio da repreensão do adulto que a criança toma para si a regra de que “mentir é errado”, sem, num primeiro momento, compreender qual a razão disto. As regras poderão ser levadas ao pé da letra até que ela tenha o desafio de praticá-las e experimentá-las na realidade por diversas vezes e de formas variadas, refletindo a respeito e contraponto seu ponto de vista com o dos outros. Por exemplo: num jogo de tabuleiro, a criança pode defender fortemente a regra de que é permitido jogar o dado apenas uma vez até que ela passe pela experiência de jogá-lo tirando apenas o número um. Isso não lhe parece justo. Mas, em outro momento, observa um colega passar por situação semelhante sem se sentir injustiçada, pelo contrário, ainda animada com a possibilidade de vencer. Ou, ainda, observa que nem a própria sorte de tirar números altos lhe garante a vitória do jogo, pois pode cair em uma casa que lhe obriga a retornar para o início do tabuleiro do jogo.

Assim, a criança vai checar e chocar suas razões, suas fantasias constantemente com a realidade de várias pessoas. E, muitas vezes, não entrará em acordo até que observe que existe um caminho comum, um caminho em que as regras podem ser universais, que é o caminho da verdade e da cooperação. Ela precisa “trazer o policial de fora para dentro” (Fraiberg, apud Brazelton, 1994, p. 409). Ou seja, a criança só terá a noção interiorizada e compreensiva da regra, só compreenderá, de fato, a ordem do “não mentir” quando puder experimentar a reciprocidade e o respeito mútuo que pressupõe o ato de não mentir: enganar alguém suprime a confiança mútua.

 COMO LIDAR COM A MENTIRA INFANTIL

“O adulto não deve perturbar a fantasia da criança, mas também não deve reforçá-la.”
(Lobo, 1997, p.281).

Se um acontecimento pode ser vivenciado e explicado pela criança de forma fantasiosa, seu sentimento não o é. Sua angústia em desapontar um adulto querido é, muitas vezes, o motivo pelo qual a criança mente. O medo e a culpa estão presentes, são reais e não devem ser desmistificados pelo adulto. Mas, se a farsa infantil não for desvendada pelo adulto, a criança irá demorar a perceber a realidade, retardando seu desenvolvimento moral. O adulto jamais deve perder a oportunidade de ensinar a responsabilidade e o respeito aos outros e a si mesma. Como fazer?

MODELO – Em primeiro lugar e mais importante está o modelo do adulto. O adulto deve ser sempre verdadeiro e honesto tanto com a criança quanto com os outros.

Deixar o bebê na casa da avó e sair de mansinho escondido para poupá-lo da despedida certamente não é um bom modelo, tampouco uma boa experiência de confiança a ser transmitida para a criança.

Pedir, cochichando e fazendo mímicas, para que digam ao telefone à “moça do telemarketing” que você não está, pode de lhe parecer justo, afinal, quantas vezes ela realmente pode te importunar? Porém, não é um bom exemplo de verdade, como a regra da verdade poderá ser generalizada para as crianças assim?

Criar explicações fantasiosas em algumas situações não é nada produtivo na educação de crianças. Às vezes somos tão infantis quanto elas na tentativa de aliviar nossas ansiedades e tensões. Dar bronca numa mesa porque “ela bateu na cabeça da criança” não a ajudará de forma alguma na diferenciação entre fantasia e realidade, pelo contrário, a confundirá, pois ela acredita facilmente nas coisas mais absurdas. Se o adulto fala que alguém está no bolso da criança ela irá procurar lá, até que se sinta boba e desconfiada.

As “brincadeiras de faz de conta” são “brincadeiras de faz de conta”, são jogos simbólicos e não “brincadeiras de mentirinha” – cuidado com os termos usados com as crianças.

NÃO AMEAÇAR – É completamente incoerente exigir que a criança não minta se a ameaçamos no dia a dia com inverdades. Não se pode esperar que ela perceba objetiva e responsavelmente a realidade se tornando fiel a ela se dizemos para “não ir para aquele lado senão o bicho papão irá pegá-la”, ou “não fugir de casa, porque o homem do saco vai comê-la”. Assim, na checagem que ela fará em suas diversas experiências descobrirá que não pode confiar nos outros e que poderá discursar fantasiosamente conforme seus interesses a fim de atingir seus objetivos.

CONTROLAR REAÇÕES EXAGERADAS – Por mais que se sinta decepcionado diante da mentira de um filho, lembre-se que ele ainda não compreende responsavelmente porque não deve mentir, sua intenção é genuinamente positiva e, talvez, o único caminho independente conhecido por ele. Evite reagir de forma horrorizada diante de uma mentira e se o fez, admita e peça desculpas. As reações destemperadas e os castigos severos levam a criança a três possíveis caminhos: consciência rígida demais, revolta ou repetição compulsiva da mentira. Procure compreender as circunstâncias dos fatos e os motivos da criança, só assim poderá conduzi-la num bom caminho.

DIÁLOGO COMPREENSIVO BASEADO NO RESPEITO MÚTUO E NA COOPERAÇÃO – Não deixe passar. Por mais engraçadinha ou corriqueira que pareça uma mentira, ela é uma boa oportunidade de conversa. Se o adulto não contrapuser a fantasia da criança com a realidade, ela manterá seu pensamento mágico e egocêntrico certa de que só há mal na mentira que é descoberta. É preciso confiar na criança demonstrando boa vontade em ajudá-la, mas sempre a aproximando da realidade, ensinando-a a entender as consequências de suas atitudes. Discuta o episódio, procure descobrir com ela as razões que a levaram a mentir, pois isso a ajudará a respeitar os sentimentos e direitos alheios. Se necessário, aplique sanções que a ajudem a relacionar atitudes com suas consequências.

REFERÊNCIAS

ALVES, Rubem. Paisagens da Alma. São Paulo: Planeta, 2013.
BLOCH, Pedro. Dicionário de Humor Infantil. Rio de Janeiro: Ediouro, 1998.
BRAZELTON, T. Berry. Momentos decisivos do desenvolvimento infantil. São Paulo: Martins Fontes, 1994.
LOBO, Luiz. Escola de Pais: para que seu filho cresça feliz. Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 1997.
PIAGET, Jean. O Juízo Moral na Criança. São Paulo: Summus Editorial, 1994.

Acesse a versão para impressão aqui: http://www.themaeducando.com.br/site/noticias/arquivos/201310231611240.04%20-%20Boletim%20SetOut%20-%20Pseudomentiras.pdf

BOLETIM REFLEXIVO JUN/13 – Todo mundo tem um nome: diga lá qual é o seu

BOLETIM REFLEXIVO copy3Assim que alguém engravida vem um monte de perguntas: “é menino ou menina?”, “como vai chamar?”.

E quando a criança nasce, cada um enxerga uma coisa: “nossa! é a cara do pai!”, “que graça, puxou a mãe”. E logo os comentários e as perguntas se voltam para a própria criança: “qual é o seu nome?”, “quantos anos você tem?”, “você já vai à escola”?

Dentre todos os questionamentos, apenas um é permanente e escutaremos para sempre, e a resposta será sempre a mesma:

 – TODO MUNDO TEM UM NOME, DIGA LÁ QUAL É O SEU!

 “Se um nome é propriedade exclusiva de um determinado sujeito,
seu sentido não se esgota com essa qualidade: confere-lhe um título
que faz dele alguém insubstituível” (Tesone, 2009, p.141).

Capturar1INDIVIDUALIDADE

O nome é o primeiro presente dado pelos pais a um filho e o único que ele poderá carregar eternamente consigo mesmo. Por isso, algumas vezes, sua escolha é tão difícil e certamente muito importante – ele será a principal forma de identificação daquela pessoa.

Para os habitantes da antiga Mesopotâmia, dar nome a uma criança era um ato de chamado à vida (Tesone, 2009). Nominar as pessoas é inseri-las em um mundo social, anunciá-las: o nome próprio diferencia a pessoa de um todo do qual ela faz parte, e, por isso, para se relacionar e se comunicar com esse “todo”, precisa ser identificada de uma forma específica.

Os nomes são as primeiras palavras com significado na aquisição de linguagem das crianças e eles ajudam-na a fazer o reconhecimento de si próprias e do mundo; é por meio da nominação que elas compreendem que são diferentes dos outros: a mamãe é a ‘Claudia’… eu sou o ‘Felipe, Tiago, Rafael’; a ‘Gabriela, Carolina, Mariana’ são minhas amigas…

O nome individualiza a criança, consagra sua originalidade e a história da sua escolha e seu significado o tornam único, assim como aquele ser humano.

 SIGNIFICADO DOS NOMES: DESEJOS E EXPECTATIVAS

O nome é a primeira inscrição simbólica do ser humano em que aparece o desejo dos pais (Tesone, 2009). A história da escolha de um nome é carregada de sentimentos e expectativas depositados na vida da criança. Essas histórias são quase como “profecias” a serem realizadas ou mesmo, em alguns casos ou momentos, a serem desmistificadas ao longo da vida da pessoa.

Os pais do Thema compartilharam conosco um pedacinho da história da escolha dos nomes de seus filhos e enquanto apreciávamos essas histórias, percebemos que eles consideram diferentes aspectos ou fatores neste processo de escolha, como a pronúncia, grafia ou sonoridade do nome; originalidade; apelidos; associações ou homenagens a pessoas conhecidas ou a personagens apreciados em filmes ou livros; resgates de lembranças ou experiências positivas; afinidade, gosto ou apreço pelo nome ou até gratidão pelo filho, além de diversos significados, tais como:

BELEZA, ALEGRIA, FELICIDADE, VIDA, FORÇA, DOÇURA, ESPERA, TRANQUILIDADE, ENERGIA, LUZ, SOCIABILIDADE, PUREZA, SABEDORIA, PRESENTE OU GRAÇA DIVINOS, INTELIGÊNCIA, SABEDORIA, PROTEÇÃO, OUSADIA, CORAGEM, DONS, SOBERANIA, GRACIOSIDADE, INDEPENDÊNCIA, FORÇA DE VONTADE, LIDERANÇA, DINAMISMO, SIMPLICIDADE, JUVENTUDE, NOBREZA, GENEROSIDADE, LUTADORA, VERDADEIRA, PRECIOSIDADE, SEGURANÇA ETC.

048TRABALHO PEDAGÓGICO COM NOMES

Além de ser a primeira forma de identificação da criança, o nome é uma palavra de escrita estável, ou seja, é semelhante em qualquer contexto. Assim, trabalhar com nomes em sala de aula na Educação Infantil facilita a memorização das letras oferecendo às crianças um repertório significativo e funcional. Além de representar a própria criança, o nome constitui uma marca que pode identificar seus objetos e suas produções, ou seja, é uma escrita que possui funcionalidade: há um sentido e uma motivação para escrever. Isto faz com que a criança atribua importância às letras, à escrita e à leitura.

Apropriar-se das letras neste contexto particularmente positivo, agradável e funcional confere grande importância ao uso pedagógico do nome no processo de alfabetização e letramento: é por meio dos nomes (e não mais da reprodução mecânica das letras como se fazia antigamente) que a criança faz o reconhecimento do valor sonoro das letras, desenvolve estratégias, cria hipóteses, faz comparações e associações a fim de, não só aprender a ler e a escrever, mas de reescrever e resignificar a si mesma:  a criança vai, literal e simbolicamente, reescrevendo seu nome e o significado atribuído a ele inicialmente pelos pais.

 PERCURSOS

A escrita da criança passa por algumas etapas até que ela escreva convencionalmente:

Untitled-4


1
– As crianças imitam a escrita rápida dos adultos produzindo garatujas.

 

Untitled-5

2 – Procuram alinhar os grafismos horizontalmente, ou seja, já possuem maior intencionalidade.

Untitled-6


3
– Aparecem símbolos discretos, as pseudoletras.

 

Untitled-8

 4 – Aparecem as letras, mesmo que de forma aleatória.

 

Untitled-75 – Depois, a criança memoriza a ordem das letras, passando a escrever seu nome mais convencionalmente.

Do mesmo jeito que a escrita tem um percurso, a leitura (que também chamamos de identificação do nome) tem também o mesmo processo:

1- Não há diferenciação parte-todo (em apenas uma letra do nome pode estar escrito todo seu nome; em todo o seu nome podem ser lidos vários nomes);

2- Tentativa de corresponder partes da escrita a partes do nome (assistemática: em algumas situações pode ler o S e dizer que ali está o “So” da Sofia);

3- Passa a corresponder as letras e as sílabas de emissão verbal sistematicamente;

4- Atribuição de valores sonoros estáveis às diferentes partes do nome (inicialmente apenas a primeira letra, depois ao restante; pode também passar a ler seu nome – Sofia, por exemplo – em tudo o que começa com S: “é o meu S”);

5- Análise fonética (leitura convencional: percebe que apenas aquela sequência de letras compõe seu nome).
Capturar

Capturar2DESENVOLVIMENTO E IDENTIDADE

Há um ponto em que todos os profissionais e especialistas que lidam com desenvolvimento humano concordam: os seis primeiros anos de vida são os mais importantes para a formação de qualquer pessoa (Lobo, 1997). As crianças fazem reformulações incessantes sobre tudo o que observam e sentem, principalmente sobre si mesmas nas relações com o mundo das coisas e das pessoas.

Nesta etapa de vida, alguns significados sobre a identidade da criança a antecedem baseados nas expectativas e desejos dos pais a respeito de seus filhos. Nos traços dos nomes, por exemplo, estão as marcas que os outros designam a nós (Tesone, 2009).

Por isso, é importante os adultos refletirem sobre como se referem à criança – quais apelidos ou nominações eles usam? Que características ou qualidades utilizam para descrevê-la. Uma palavra carrega uma imensidão de significados subjetivos a cada pessoa.

Capturar3Atribuições dadas com grande frequência (como por exemplo: “ele é assim mesmo – muito envergonhado, como o pai…”, “ela é muito inteligente, a criança mais inteligente da família”), apelidos depreciativos bem como elogios excessivos marcam fortemente a formação das crianças podendo influenciar de forma negativa seu desenvolvimento mental e afetivo, ou prejudicar sua autoestima especialmente quando usados pelos pais, pois suas atitudes e opiniões pesam muito mais do que a de outras crianças ou até outros adultos de menor referência. Lobo (1997) exemplifica estes efeitos negativos da seguinte forma:

“Bruno Bettelheim, a propósito, cita a história da Bela Adormecida. Quando ela nasceu a mãe convidou as fadas para o batizado. E não convidou a bruxa. Cada fada trouxe, como presente, alguma coisa capaz de fazer a criança feliz. Mas a bruxa lançou sua maldição sobre a criança e tudo o que as outras haviam oferecido não impediu que a menina caísse em sono profundo.” (p.88)

Temos o compromisso, enquanto educadores, de dar espaço para que as crianças reescrevam seus próprios nomes, construam e resignifiquem sua própria identidade de maneira criativa e autêntica.

REFERÊNCIAS

Capturar4

LOBO, Luiz. Escola de Pais: para que seu filho cresça feliz. Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 1997.

TESONE, Juan Eduardo.  Inscrições transgeracionais no nome próprio. J. psicanal.,  São Paulo,  v. 42,  n. 76, jun.  2009 .   Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-58352009000100010&lng=pt&nrm=iso>. acessos em  26  jun.  2013.

Versão para impressão: http://www.themaeducando.com.br/site/noticias/arquivos/201307031525250.03%20-%20Boletim%20Reflexivo%20MaiJun%20-%20Nomes.pdf

Boletim Reflexivo Mar/Abr 2013 – Conflitos que permeiam a Educação Infantil

conflitos 1

O INÍCIO DA EDUCAÇÃO INFANTIL É MARCADO POR CONFLITOS FÍSICOS – MORDIDAS, EMPURRÕES E TAPAS, MAS QUANDO A ORALIDADE COMEÇA, É MAIS OU MENOS ASSIM:

 

“ELE NÃO É MAIS MEU AMIGO!”
“NÃO GOSTO DE VOCÊ, VOCÊ É UMA CHATA!”
“NUNCA MAIS VOU BRINCAR COM VOCÊ!”
“NÃO VOU TE CONVIDAR PARA O MEU ANIVERSÁRIO.”
“NINGUÉM GOSTA DE MIM. TENHO QUE BRINCAR SOZINHA TODOS OS DIAS,
NÃO TENHO NENHUM AMIGO.”

DESENVOLVIMENTO MORAL E CONFLITOS

 Em linhas gerais, o desenvolvimento moral da criança parte da percepção do mundo sob o “meu ponto de vista” até a capacidade de se colocar no lugar no outro, para, aí sim, portar-se como alguém que pertence a um grupo ou sociedade.

Nos dois primeiros anos de vida, mais ou menos, a criança busca conhecer o mundo das coisas e das pessoas por meio das sensações que eles lhes provocam. Seus conflitos se direcionam na busca pela segurança e confiança de ter suas necessidades (apontadas pelo corpo) atendidas. Nesta fase, as mordidas e os tapas, por exemplo, são nada mais do que maneiras de descobrir o mundo, de experimentar as sensações que eles provocam.

A partir de um ano e meio ou dois, adquirida a confiança, as crianças passam a descobrir seus potenciais e vontades – não é à toa que a retirada de fraldas acontece neste período. Suas disputas são por controle (e autocontrole…). Enquanto elas ainda tem a linguagem corporal mais vívida que a verbal, as disputas por espaço, por objetos e até pela própria autonomia acontecem por meio de mordidas, tapas, choros e birras.

Por volta dos 3 anos, as crianças já possuem mais recursos verbais para se comunicarem, e farão uso deles para demonstrar e resolver seus conflitos. Por isso, nesta fase, “discutem” muito: questionam e argumentam para compreender as regras de convivência. Como elas já adquiriram capacidade de simbolizar o mundo mentalmente, seus conflitos não acontecem apenas na relação com os outros, mas também consigo mesmas e aí aparecem falas do tipo “ninguém gosta de mim, ninguém é meu amigo”. Ou seja, os conflitos não estão apenas no plano concreto, mas também no plano interno, mental – das ideias e emoções. Elas ficam cheias de questionamentos para “desvendar os mistérios do mundo”. Buscam compreender os propósitos das regras e de suas próprias atitudes. Estes questionamentos vão se aprimorando até que, por volta dos 6 anos de idade, elas se tornem capazes de se colocar no lugar do outro (ao menos em algumas situações, visto que, podemos dizer, até os adultos não são capazes de fazer isto sempre).

COMO LIDAR COM CONFLITOS

 Obediência e Condicionamento x Cooperação e Responsabilidade

O objetivo da educação vai bem além da obediência – a obediência nem sempre é um valor moral. O ideal é ensinar a criança a perceber o que está acontecendo, tomar consciência dos seus sentimentos e dos do outro, expressá-los e pensar em soluções. Quando a obediência se torna um fim em si mesmo, a criança não desenvolve a capacidade de se colocar no lugar do outro ou de avaliar o que é certo ou errado, mas sim a capacidade de responder conforme a expectativa do outro. Se o outro não estiver presente, ela poderá fazer uso de sua liberdade “momentânea” para escolher o errado ou para atender sua própria vontade, assim, pode optar por cometer um erro assumindo conscientemente as consequências de tal escolha. Dar ordens e determinar as regras sem manifestar o sentido delas provoca dependência, medo e insegurança e não adequação moral e social.

A forma de abordar as crianças (com autoridade e não com autoritarismo) pode diminuir a disputa pelo poder numa relação que já é desigual. Se pedimos cooperação ao invés de exigirmos e se persuadimos as crianças ao invés de controlá-las, as encorajamos a se tornarem auto reguladoras e responsáveis.

“Escutar” os conflitos das crianças e olhar para si mesmo

Sempre escute a criança: pergunte o que aconteceu e como ela está se sentindo na busca do entendimento amplo e justo das situações. Escute sempre os dois lados de um conflito. Quando um adulto faz parte desse conflito, o exercício de se colocar no lugar da criança e de ser justo é ainda mais desafiador, pois as emoções interferem na compreensão ampla da situação. Por outro lado, se ele solicita ajuda a outro adulto com frequência, mostra à criança que não é capaz de ser justo e de enfrentar as dificuldades. Assim, ela tende a explorar ao máximo as possibilidades diante deste adulto até que ele, mais uma vez, “passe a bola” para outra pessoa. Se o adulto envolvido for o de maior ascensão emocional da criança, outra pessoa pode pedir permissão (de forma espontânea) para assumir o diálogo com a criança fazendo com que o adulto de maior proximidade emocional se retire. Assim, a criança poderá deixar de lado, por algum momento, a postura de enfrentamento ou de manipulação emocional para olhar para si mesma e recapitular o acontecido.

Se as crianças puderem ser honestas ao se expressarem por meio de palavras e atitudes adequadas, aprenderão que muitos conflitos podem ser resolvidos sem grandes tensões e que é possível conviver coletivamente de forma justa e autônoma, sem abrir mão de sua participação e de suas opiniões.

DSC_0125Importância dos conflitos

Conflitos não devem ser evitados: eles favorecem o desenvolvimento de habilidades cognitivas, sociais e afetivas da criança. É por meio das vivências adequadas de conflitos que chegamos ao ponto de “sermos indivíduos no mundo”.

Conflitos entre crianças

Quando um conflito acontece entre duas crianças, procure não “tomar partido” incentivando que as crianças pensem conjuntamente em soluções e em formas de ‘reparação’. O conflito pertence às crianças. Acredite: elas são capazes de criar soluções, basta que o adulto, em seu papel de mediador, dê espaço para isso. Depois de permitir que elas se expressem, se necessário, ajude-as com sugestões. Entretanto, a responsabilidade pela integridade física da criança deve ser assumida pelo adulto.

conflitos2

Quando as crianças são irmãs, é praticamente impossível (pela frequência de conflitos e pelo envolvimento dos adultos com as crianças) que pais façam a mediação do diálogo de forma imparcial. Neste caso, eles podem ajudar a esclarecer o ocorrido e conceder completa autonomia para que elas decidam por um acordo: devem retirar-se do ambiente dizendo “agora vou deixar vocês resolverem o problema entre vocês – quando tiverem chegado a um acordo, por favor, me avisem”. Irmãos que constroem uma relação própria sem a interferência dos pais (ou seja, não se relacionam apenas em função das expectativas e cobranças dos pais) tendem a criar relações mais próximas e duradouras entre si, especialmente na vida adulta.

Coerência

A coerência nas atitudes dos adultos é fundamental, pois é difícil para a criança de até 6 anos compreender os princípios morais que regem as relações humanas se elas variam muito, se são condicionáveis. Os modelos que oferecemos ainda conferem fortes significados na construção do “ser” da criança. Ela é capaz de aprender por meio dos exemplos dos outros.

Limites

Definir e mostrar os limites é fundamental. Não grite – fale com firmeza, demonstrando amor e cuidado. Dar limite é cuidar, é oferecer segurança. A criança está apenas tentando conhecer, processualmente, este mundo misterioso e precisa de um espaço seguro para isso. Os limites a ajudam a se organizar na relação com o complexo mundo das sensações, das coisas e das pessoas. Se a criança for atendida e agir sempre em função das próprias vontades, sem reconhecer o limite que existe no seu contato com o mundo, de fato, “o mundo não gostará dela” e, provavelmente, ela desenvolverá uma baixa autoestima.

Erros e Castigos

Pedir desculpas é importante sim, mas só isso não adianta. A criança pode repetir sua atitude sabendo que bastará pedir desculpas novamente. O mesmo vale para castigos que não tem relação direta ação-consequência com o ocorrido. Ajude a criança a observar que resultados sua atitude provocou. Incentive-a a repará-los quando possível e a pensar em formas de evitá-los (não são os conflitos que devem ser evitados, mas os resultados negativos de certas atitudes). Se for necessário que a criança perceba/conheça as consequências de tais ações, aplique sanções.

Sanções

O uso de sanções educativas exige uma postura reflexiva tanto do adulto quanto da criança em relação às atitudes de cada um e suas consequências. Elas evocam o senso de reciprocidade no intuito de fazer a criança compreender o alcance de sua ação. Existem as sanções que privam a criança de algo conforme o ato cometido como por exemplo: a exclusão temporária ou permanente num grupo ou atividade, a privação de contato com um objeto mal utilizado. Outra forma de sanção é fazer com a criança que cometeu a falta algo semelhante aquilo que fez (esta sanção exige cuidado redobrado para não ser aplicada ou sentida como um mal que está sendo devolvido com outro mal). E, por fim, pode-se fazer com que a criança restitua o objeto danificado: pague, substitua ou conserte aquilo que estragou. Algumas vezes, a criança pode ser convidada a bolar estratégias junto com o adulto para reparar seus erros. As sanções não devem ser usadas para todas as situações, mas quando não foi possível demonstrar para a criança a consequência de suas atitudes e o motivo moral pelo qual não deve repeti-las.

DSC_0077Conflitos e Tempo: Calma!

Procure compreender e respeitar a fase de desenvolvimento e as necessidades da criança. Muitas vezes as crianças precisam passar por determinadas experiências mais de uma vez para entender a “lógica e o funcionamento das coisas”, até se “essas coisas” são condicionadas a fatores específicos ou não. Por isso, não se canse de repetir.

Saiba abandonar o conflito quando as próprias crianças já o fizeram. Ou o conflito já foi solucionado, ou será “retomado” num momento em que elas puderem, de fato, dar conta dele. Quando preciso, conceda um tempo para a criança assimilar o acontecido. “Colocar para pensar” não é conceder este tempo – é uma punição. Pensar é algo bom, não combina com punição. E punição não combina com educação, pois a criança está aprendendo. Se ela já soubesse o que é certo e o que é errado não precisaria estar sendo educada.

Procure ter e transmitir calma, paciência e autocontrole: se você perder a “compostura”, além de perder a razão, ensina a criança que, diante de tensões, quando não são encontradas soluções ou acordos, o melhor é apelar para métodos ou comportamentos extremos.

Agressões “corretivas”?

Não dê palmadas em crianças. Agressões não resolvem problemas, apenas geram raiva. Como você ensina a criança a não agredir as pessoas se você faz isso com ela? É muito incoerente. Se o adulto pode bater na criança porque é maior que ela e tem a pretensão de educá-la, então ela poderá bater nas crianças menores quando quiser ensiná-las algo? Você não bate no seu colega de trabalho… Respeite a criança: ela é menor e mais fraca que você, porém é um ser humano assim como o seu colega de trabalho… Como podemos ensiná-la a respeitar os outros, se não a respeitamos? Não incentive a criança a se defender de colegas agredindo-os. Isto é tão incoerente quanto castigar a criança com palmadas. Como ela pode esperar que um amigo não a machuque se a machuca em seguida? Incentive a criança a conversar, a ser firme no que fala, e transmita a segurança de que, se ela não conseguir solucionar o problema, certamente encontrará ajuda de um adulto, e deve buscá-la. Ensine seu filho a pensar, a solucionar problemas com as ideias e com atitudes adequadas e não com impulsos emocionais e corporais – caso contrário, será natural ela resolver problemas agredindo as outras pessoas ou até a si mesma.

BIBLIOGRAFIA:

DEVRIES, Rheta. A ética na educação infantil. O ambiente sócio-moral na escola. Porto Alegre: Artmed, 1998.
ERIKSON, Erik H. O Ciclo de Vida Completo. Porto Alegre: Artmed, 1998.
FREUD, Sigmund. O mal estar na civilização. In: FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira da Obras Psicológicos completas de Sigmund Freud. Volume XXI. Rio de Janeiro: Imago, 1929/1996.
PERRENOUD, P. Escola e cidadania – o papel da escola na formação para a democracia. Porto Alegre: Artmed, 2005.
PESSOA, Fernando. Obra Poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar S. A., 1990.
PIAGET, J. O juízo moral na criança. São Paulo: Summus, 1994. (Texto original 1932)
RAPOPORT, A. (org.) O dia a dia da educação infantil. Porto Alegre: Editora Mediação: 2012.
TAILLE, Yves de La. Moral e ética: dimensões intelectuais e afetivas. Porto Alegre: Artmed, 2006.
VINHA, Telma Pileggi. O educador e a moralidade infantil: uma visão construtivista. Campinas: Mercado de letras, 2000.

Boletim Jan/Fev 2013 – As adaptações de um novo ano

ANO NOVO, VIDA NOVA01

“MAMÃE, ESCOLA NÃO TEM QUE QUERER NÉ? TENHO QUE IR.”

“TIA AGORA SOU MUITO GRANDE VOU PARA O G2.”

“A GENTE CRESCEU E POR ISSO MUDOU DE SALA.”

“AS MESINHAS DO G2 SÃO MAIORES QUE AS DO G1. É QUE A GENTE CRESCEU.”

“EU GOSTEI DE MUDAR DE GRUPO. ESTÁ MUITO LEGAL SER DO G4!.”

“NO G4 TEM COISAS QUE SÃO DIFERENTES. ENTÃO, A GENTE VAI TER QUE DESCOBRIR MAIS COISAS.”

“ESSA SALA TEM MESA, CADEIRA. EU GOSTO DO VERMELHO E AZUL E VOU SENTAR PARA DESENHAR O PAPAI E A MAMÃE.”

“ESTOU CRESCENDO MUITO, IGUAL AO MEU PAI E QUANDO A GENTE CRESCE, MUDA DE SALA.”

AS CRIANÇAS QUE CHEGARAM AO G1, DEPOIS DE ORGANIZAREM UM JOGO, FORAM CHAMADAS PARA FAZER UMA RODA DE HISTÓRIA. A MÚSICA EU VOU CONTAR UMA HISTÓRIA, AGORA ATENÇÃO… COMEÇOU A SER CANTADA E AS CRIANÇAS BUSCARAM UM ESPAÇO PARA SE ACOMODAR E OUVIR-LA. A EDUCADORA SENTOU-SE NO CHÃO, ESPERANDO QUE TODOS FIZESSEM O MESMO. MAS, QUANDO TERMINOU A MÚSICA, TODOS TINHAM PROCURADO UMA CADEIRA PARA SE SENTAR. ENTÃO, UMA RODA DE HISTÓRIA COM CADEIRAS FOI ORGANIZADA. (COORDENADORA DO THEMA)

“MINHA PEQUENA PASSOU POR ESTA FASE NO ANO PASSADO…. (MUDANÇA DO BERÇÁRIO PARA O MATERNAL). CADA ANO QUE PASSA VEM NOVAS CONQUISTAS, DESAFIOS, MEDOS, E DEPOIS UM AFETO GIGANTE PELAS NOVAS “TIAS”. PARECE QUE FOI ONTEM QUE FIZEMOS A ADAPTAÇÃO NO BERÇÁRIO.” (MÃE DO THEMA)

“O PROCESSO DE ADAPTAÇÃO DO J. FOI LONGO… NA VERDADE, NÃO FOI O TEMPO DELE QUE REGULOU A ADAPTAÇÃO, MAS O MEU… TIVE 5 MESES DE LICENÇA E NÃO FOI FÁCIL DEIXÁ-LO NA ESCOLA TÃO PEQUENO… ME SENTIA CULPADA, DIVIDIDA, INSEGURA. FIQUEI 2 SEMANAS E MEIA SENTADA NAS CADEIRAS LARANJAS DO CORREDOR DA ESCOLA E FOI ÓTIMO. VIVENCIEI A ROTINA DA ESCOLA… O CARINHO COM QUE AS PROFESSORAS E FUNCIONÁRIOS TRATAVAM AS CRIANÇAS. OUVI PALAVRAS DE APOIO EM TODOS OS MOMENTOS QUE CHOREI E, NO ÚLTIMO DIA DE MINHA LICENÇA, O J. DORMIU COMO UM ANJO NA SALA DO BERÇÁRIO. FOI ALGO COMO “MAMÃE, FIQUE TRANQUILA, ESTOU BEM! PODE VOLTAR AO TRABALHO, POIS SEI QUE ISSO TAMBÉM É IMPORTANTE PARA A SUA FELICIDADE”. HOJE, QUASE 2 ANOS DEPOIS, SEI QUE FOI A MELHOR DECISÃO QUE PODÍAMOS TER TOMADO.” (MÃE DO THEMA)

O PROCESSO DE (RE)ADAPTAÇÃO

Adaptações são parte integrante do desenvolvimento, já que as pessoas estão continuamente adaptando-se a novos momentos, ambientes e situações ao longo do ciclo vital. A cada coisa nova que aprendemos, mudamos e, às vezes, precisamos mudar o que está ao nosso redor. Vamos nos desenvolvendo entre estabilidades e mudanças, um processo contínuo e recíproco de transformações.

Ao longo do ano, as crianças passam por experiências novas: uma nova habilidade que descobriu em si, uma história que ouviu, um fato que viu, uma doença, um colega novo que entrou na turma, um irmão caçula que vem chegando na família… Algumas delas podem mobilizar emoções relacionadas à insegurança.

Quando a criança ingressa na escola ou um novo ano escolar se inicia, então, são muitas novidades. Algumas podem ser motivadoras, outras podem causar estranhamento, principalmente quando estava gostoso curtir, por exemplo, uma viagem em companhia dos queridos familiares… Ou seja, sentimentos e comportamentos inesperados em relação à escola podem aparecer. Então, é preciso procurar pacientemente entender o que se passa, conversar e transmitir segurança. E fazer isto em parceria com a escola, trocando ideias e informações, será excelente para todos superarem, juntos, o momento. Quanto mais a criança estiver habituada e afetivamente ligada ao ambiente escolar, mais naturalmente ela poderá encarar mudanças, novidades e medos.

Cada criança e cada família tem seu próprio ritmo e seu próprio modo para se adaptar. Falamos em processo, pois trata-se de um movimento gradativo que vai se construindo nas interações entre as pessoas e os ambientes.

A adaptação depende, dentre outros fatores, das características da criança,  de sua idade e da fase de desenvolvimento em que se encontra; e das características dos familiares e das pessoas envolvidas no ambiente escolar. O processo de adaptação costuma ser um momento de emoções diversas, ansiedades e inseguranças para todos, afinal primeiro precisamos conhecer para depois confiar. E isto demanda tempo.

A Educação Infantil é, para muitas crianças, sua primeira experiência social e exige, portanto, um grande empenho emocional de todos.

PAPEL DA FAMÍLIA

Os pais (ou até os avós), em sua maioria, sentem-se ansiosos e divididos entre a perspectiva de ver seus filhos conquistando novos espaços e ao mesmo tempo em ter que deixá-los, às vezes, chorando com pessoas “desconhecidas”.

02Em linhas gerais, como os familiares podem ajudar seus filhos neste momento?

            – preparando-se: sempre conversando e conhecendo bem como a escola procede diante do processo de adaptação e auxiliando as pessoas envolvidas no conhecimento de seus filhos. Sempre que forem necessárias conversas mais demoradas com a professora, pedimos que a façam na hora da saída ou agendem através da coordenação;

            – preparando a criança antes de ir para a escola: é interessante falar sobre a escola permitindo que a criança crie um significado positivo dela (ex.: contar suas histórias de criança quando estavam na escola, apontar amigos e primos da criança que vão/voltam à escola), combinar sua rotina do dia com ela (ex.: “a mamãe vai te levar pra escola depois do almoço, você vai fazer diversas atividades e brincadeiras com seus amigos e depois, antes de anoitecer, a mamãe vai te buscar pra voltarmos pra casa”; situar o tempo conforme a percepção da criança). Porém não convém antecipar nem repetir muito o assunto para não gerar ansiedade desnecessária, visto que algumas crianças, conforme a idade, ainda não possuem a noção do tempo bem organizada.

            – transmitindo calma e segurança, procurando controlar suas emoções e atitudes;

            – demonstrando compreensão, amor e paciência; procurando entender as emoções, o ritmo e o momento da criança (permitir que ela traga um objeto de apego de casa se for importante para ela);

– dando espaço para que a criança reconheça e crie o seu próprio espaço na escola”: para que a criança possa conhecer e gostar da escola e das pessoas aqui presentes, se faz necessária uma certa distância dos pais, é preciso haver um espaço para que ela possa ser conquistada. A despedida, por exemplo, deve ser enfrentada sem mentiras, evitando saídas às escondidas, sempre com demonstrações de carinho, firmeza e confiança – convém explicar o momento sem prolongá-lo além do necessário, mesmo que seja preciso ouvir um pouco de choro e sair de coração “apertado”.

A IMPORTÂNCIA DA ROTINA

 Já imaginou se todos os dias você tivesse que pensar em qual caminho fazer para ir trabalhar, em que momento pisar na embreagem do carro, engatar as marchas, frear etc. como se estivesse ainda aprendendo a dirigir? Se todos os dias fossem como os primeiros dias de anos escolares, em que você tivesse que decidir em qual carteira se sentar e de qual colega novo se aproximar? Poderia ser bastante tenso ou ao menos desgastante. Nossa memória nos ajuda a nos “acostumar”, automatiza uma série de atividades dando espaço para que nossa mente possa apreender novas experiências.

 As crianças, além de terem os sentidos apurados para adquirir novos conhecimentos (elas são capazes de aprender muito mais coisas em um dia do que os adultos), tem um mundo inteiro para conhecer. Por isso, uma certa rotina de atividades e horários é de suma importância para ajudá-las a “se acostumarem”. A rotina oferece segurança, tranquilidade e autonomia a elas, especialmente quando se trata do ambiente escolar, um lugar rico e variado de pessoas, coisas e acontecimentos. Quando os pais e professores organizam os horários das crianças favorecem um bom relacionamento delas com o mundo.

PAPEL DA ESCOLA

Para propiciar cuidado e educação infantil de qualidade, impõe-se o pensar na formação e na capacitação contínuas dos profissionais a fim de que estejam preparados para receber as diferentes situações que se apresentam e refletir sobre elas. Lidar com a adaptação exige aceitar as múltiplas perspectivas com que uma determinada situação é entendida/vivenciada pelos diversos participantes.

 Isso pressupõe que a escola seja aberta, com clara disposição para uma relação franca e acolhedora com a família. Nesse panorama, as relações escola-família colocam-se como o aspecto central de atenção, transformando-as em grandes parceiras nos cuidados e na educação da criança. Apenas de forma conjunta é possível conduzir adequadamente o processo de adaptação à escola, por isso o acolhimento é fundamental.

A criança, para elaborar bem este processo de mudanças, precisa ter oportunidade para sentir falta da pessoa querida que está ausente, sentir-se triste, sozinha e talvez até zangada e deve poder expressar seus sentimentos de maneira apropriada. Nesse sentido, é fundamental que a professora esteja segura em saber intervir no momento certo criando uma relação afetiva de confiança, tanto com a criança quanto com os pais. Como organizadora desse processo, a professora também necessita ter consciência dos sentimentos envolvidos, revendo suas próprias emoções, e fazendo reflexões diárias.

Os primeiros dias são realmente mais difíceis e cansativos, demandando maior dedicação por parte da professora. A coordenação, nesse momento, poderá ajudá-la a construir sua segurança e autoridade para atuar de forma mais tranquila, trocando, ao final de cada dia, ideias sobre as conquistas, os equívocos, os excessos, as principais dificuldades, repensando-os para o dia seguinte.

A DECISÃO DE LEVAR A CRIANÇA PARA A ESCOLA

 A entrada da criança na escola é um momento marcante. Em primeiro lugar, é importante que a decisão de colocar a criança na escola seja tomada de maneira consciente levando em conta tanto as necessidades dos pais quanto as da criança.

 Não há uma regra que defina exatamente o que é melhor, qual o momento certo: seria ultrapassado e injusto dizer apenas que os pequeninos tem vantagens com os cuidados “exclusivamente” maternos até os 2 anos de idade sem considerar o cansaço da mãe, sua carreira profissional e a colaboração que possa ter ou não nas atividades do dia a dia com seu filho em casa. Para muitas famílias, apenas uma dessas questões já pode ser decisiva para a busca de suporte profissional.

 Por outro lado, a primeira infância é a fase de maior e mais rápido crescimento e desenvolvimento humano: constitui a base da formação humana (personalidade, valores etc.). Aos poucos (e bem cedo) as necessidades das crianças vão se ampliando: além dos cuidados com alimentação, sono e higiene, elas precisam de oportunidades para conhecer, explorar e aprender o complexo mundo: das coisas, das sensações, das relações humanas.

 Considerando estas necessidades de pais e filhos e conhecendo e concordando com os recursos físicos, materiais e profissionais da escola escolhida, a filosofia e os valores da mesma, não há motivos para que os pais sintam-se culpados pela decisão. Vale lembrar, que a escola jamais desligará ou substituirá o afeto que vincula a criança à sua família: a família é e sempre será a principal base e referência afetiva de todos.

1º ANO:
PROJETO “ESCOLA NOVA LÁ VOU EU”

Toda a nossa vida é feita de etapas e a transição destas é sempre um momento de apreensão. As crianças do 1º ano do Thema (por enquanto) vivem uma transição importante: a saída da escola de educação infantil e o ingresso na escola de ensino fundamental. Será necessário elaborar e expressar os sentimentos que envolvem “perdas”, como a dos amigos, e o enfrentamento de um “novo desconhecido”, com ganhos e crescimento.

Devemos ficar atentos a tais questões e atitudes que as crianças venham a manifestar. Embora esse olhar aconteça durante todo o ano, o Thema desenvolve um projeto junto às crianças com atividades semanais a partir do segundo semestre. O assunto não é apontado antes pela escola para não adiantar ansiedades, desfocando a crianças do que está sendo desenvolvido no momento presente.

O projeto “Escola nova lá vou eu” tem como objetivos favorecer a postura de estudante; aproximar as crianças das mudanças que existirão em relação à nova escola (recreio, tarefas, matérias, horários, uniforme, lanche, professoras etc.); e conhecer a rotina de outras escolas. Para tanto, no final do ano, por exemplo, fazemos um encontro dos alunos do 1º ano com ex-alunos do Thema que contam tudo sobre a experiência que tiveram ao longo dos dois últimos anos. Da mesma forma que a professora fica atenta aos sentimentos das crianças em relação às mudanças desde o início do ano, a escola também se mantém aberta para as trocas sobre esta fase com as famílias!

SEJAM BEM VINDOS!   2013, LÁ VAMOS NÓS! 

Boletim Dez/2012 – Sexualidade

SEXUALIDADEGÊNERO
O QUE OS PEQUENOS SABEM SOBRE O SER MENINA E MENINO…

 

sex1“MÃE, TEM ALGUMA COISA ESTRANHA COM A PIRIQUITA DO MEU AMIGO, QUANDO ELE VAI FAZER XIXI ELE PUXA LÁ NA FRENTE.”

A PROFESSORA EM RODA OBSERVA UMA CRIANÇA COM A MÃO DENTRO DA CALÇA E PERGUNTA SE ESTÁ TUDO BEM, ELA NA MESMA HORA RESPONDE: “É QUE MEU PIPI TÁ GLANDE E DULO.”
 

UMA CRIANÇA ENTROU NA SALA E FALOU: “O AMIGO DO MEU PAI TEVE UM BEBÊ.” A AMIGA RESPONDEU: “O AMIGO DO SEU PAI!?” TERCEIRA CRIANÇA: “É SE O AMIGO CASAR COM UM HOMEM PODE SER…” QUARTA CRIANÇA: “ERR, NADA VÊ, HOMEM NÃO PODE TER FILHO, PORQUE NO ESTÔMAGO DELE NÃO TEM CORAÇÃO!”

sex2

DOIS MENINOS CONVERSAM NO BANHEIRO: “POR QUE SEU PIPI É TÃO 

GRANDE, VOCÊ PUXA ELE?”, “NÃO, EU NASCI ASSIM.”.

MÃE: “FILHA, COMO FOI NA FESTA DE ANIVERSÁRIO?”, A CRIANÇA RESPONDE: “FOI LEGAL! FUI NAQUELE BRINQUEDO QUE SOBE DEVAGAR E DESCE DE REPENTE!”. MÃE: “NO ELEVADOR?! NÃO TE DEU FRIO NA BARRIGA?”. FILHA: “NÃO, MAS MINHA XOXOTA TREMEU!”.
 
QUAL É O PAPAI OU A MAMÃE QUE NÃO FICAM EM UMA SAIA JUSTA QUANDO SEUS PEQUENOS COMEÇAM A DESCOBRIR SUA SEXUALIDADE?
 
“EU SEI COMO EU NASCI. O PAPAI DO CÉU COLOCOU UMA SEMENTE NA BARRIGA DA MINHA MÃE. AÍ, TODA VEZ QUE CHOVIA, A SEMENTE QUE ERA EU CRESCIA. AÍ, CHOVEU, EU CRESCI, CHOVEU EU CRESCI, ATÉ QUE EU FIQUEI MADURA E NASCI!”
 

“CRIANÇAS CONVERSANDO SOBRE NASCIMENTO. A PRIMEIRA COMENTA: “O PINGUIM NASCE DE OVO E A GENTE NASCE DE BARRIGA”. A SEGUNDA: “NÃO, EU VI UMA FOTO, EU NASCI DA PERERECA DA MINHA MÃE!”. A TERCEIRA: “SERÁ QUE ALGUÉM JÁ NASCEU DO BUMBUM?”.

 “É VERDADE QUE QUANDO A GENTE NASCE SAI PELA PERERECA DA MAMÃE? PORQUE A GENTE NÃO NASCE DO PAPAI?”
 

DEPOIS DE PESQUISAR SOBRE O SISTEMA ÓSSEO, UMA CRIANÇA PERGUNTA: “TIA, MEU PIPI TEM OSSO?” E A PROFESSORA RETORNA A PERGUNTA: “PORQUE VOCÊ ACHA QUE SEU PIPI TEM OSSO?” E A CRIANÇA RESPONDE: “É PORQUE TEM HORA QUE EU SINTO ELE DURO, IGUAL QUANDO EU ACORDO OU ÀS VEZES QUE EU VOU TOMAR BANHO”. SEGUNDA CRIANÇA COMENTA: “EU NÃO SEI SE O PIPI DO MEU PAPAI É DURO, MAS ELE É GRANDE ASSIM Ó (MOSTRANDO CERTO TAMANHO COM AS MÃOS) E NOSSA (FAZENDO VOLTAS COM AS MÃOS), CHEIO DE PELOS!”. 

“EU JÁ VI ADULTO BEIJANDO NA BOCA. PARECE SER NOJENTO!”

sex3

  SEXUALIDADE E EDUCAÇÃO

A SEXUALIDADE É UMA DIMENSÃO NATURAL E INERENTE AO SER HUMANO. ENQUANTO ENERGIA QUE BUSCA O PRAZER, QUE NOS CONECTA À VIDA, INICIALMENTE A SEXUALIDADE É EXPERIMENTADA PELO CORPO TODO E VAI PROCESSUALMENTE FOCANDO ALGUMAS ÁREAS CORPORAIS CONFORME O MOVIMENTO DO DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA, ATÉ QUE, NA IDADE ADULTA, ATINGE AS REGIÕES GENITAIS COMO PRINCIPAL FOCO.

 ESSAS SENSAÇÕES CORPORAIS PROVOCAM UMA MULTIPLICIDADE DE SENTIMENTOS E, POR ISSO, CONFIGURAM NOSSAS RELAÇÕES COM O MUNDO INTERNO E EXTERNO. DIANTE DE TAL MULTIPLICIDADE FORAM CONSTRUÍDOS SIGNIFICADOS SOCIAIS CONTRADITÓRIOS SOBRE O SEXO – ORA BASTANTE PERMISSIVOS, ORA MUITO RESTRITIVOS OU ATÉ MESMO PUNITIVOS. 

 COMO EDUCADORES, NÃO PRECISAMOS REPRODUZIR ESSES SIGNIFICADOS CULTURAIS OU PESSOAIS A RESPEITO DE NOSSAS EXPERIÊNCIAS SENSUAIS ATÉ PORQUE ELES NÃO DÃO CONTA DE TAL MULTIPLICIDADE; NOSSO INTUITO É FAVORECER QUE A CRIANÇA POSSA CRIAR O PRÓPRIO SENTIDO SOBRE SUA SEXUALIDADE E IDENTIDADE, DE MANEIRA SAUDÁVEL E SEGURA.  DEIXAR DE FALAR SOBRE O ASSUNTO, EVITÁ-LO OU PROIBIR A MANIFESTAÇÃO DELE PODE FAVORECER A IDEIA DE QUE “COISAS GOSTOSAS SÃO ERRADAS” OU “SENTIR-SE FELIZ NÃO É BOM, NÃO É PERMITIDO”.  É IMPORTANTE QUE A CRIANÇA TENHA LIBERDADE PARA EXPRESSAR SUAS CURIOSIDADES E DÚVIDAS, USAR SUAS PRÓPRIAS PALAVRAS, POIS SE NÃO PUDER FAZÊ-LO, NÃO PODERÁ APRENDER MELHOR SOBRE ELA E SOBRE O MUNDO À SUA VOLTA. POR MAIS CONSTRANGEDORA QUE POSSA NOS PARECER UMA PERGUNTA, NÃO DEVEMOS DEIXÁ-LA SEM RESPOSTA, MESMO QUE ELA SEJA “NÃO SEI”.

 O PRIMEIRO PASSO É TENTAR ENTENDER BEM QUAL É A DÚVIDA, O QUE A CRIANÇA ESTÁ QUERENDO SABER E, ENTÃO, RESPONDER PONTUAL E VERDADEIRAMENTE – SEM SIMBOLOGIAS OU SEM INTRODUZIR NOVOS ASPECTOS PARA QUE ELA NÃO FIQUE SUFOCADA POR DÚVIDAS, IMAGINAÇÕES E INTERESSES MAIORES DO QUE ELA PODE DAR CONTA NAQUELE MOMENTO.

 ESTIMULAR O TEMA, ANTECIPANDO QUESTÕES QUE AINDA NÃO SE TORNARAM CAMPO DE SEU INTERESSE, TAMBÉM NÃO É NADA SAUDÁVEL – ASSIM, PODEMOS FAVORECER A IDEIA DE QUE NÃO SE TRATA DE ALGO ÍNTIMO, PRECIOSO, PESSOAL E SIM ALGO QUE PODE SER CONTROLADO/EXPLORADO EXTERNAMENTE, VIVENCIADO DE FORA PRA DENTRO. DESTA FORMA, FICA A IDEIA DE QUE SUA SEXUALIDADE É UM PRAZER A SER PROPORCIONADO PELOS E PARA OS OUTROS. UM EXEMPLO DESTA ANTECIPAÇÃO É NOMEARMOS AS PREFERÊNCIAS DE AMIZADES COMO “NAMOROS” E INCENTIVÁ-LAS PELO USO DESTES TERMOS. AS CRIANÇAS BRINCAM DE NAMORO, DE PAPAI E DE MAMÃE, ISTO NÃO SIGNIFICA QUE OS ADULTOS PRECISAM TRANSFORMAR ESSAS BRINCADEIRAS EM REALIDADE. OUTRAS QUESTÕES QUE TEM ANTECIPADO O DESENVOLVIMENTO DA SEXUALIDADE SÃO AS CULTURAS MUSICAIS E DE VESTIMENTAS E MAQUIAGENS ADULTAS QUE APONTAM O RECONHECIMENTO DA BELEZA E DOS PRAZERES DE FORA PARA DENTRO – AS CRIANÇAS TAMBÉM QUEREM BRINCAR DE IMITAR – BRINCAR E NÃO VIVER OU INCORPORAR ESTES HÁBITOS. HOJE TEMOS UMA VARIEDADE CULTURAL INFANTIL GIGANTESCA – MUITAS MÚSICAS, LIVROS, TEATROS, FILMES E DESENHOS – AS CRIANÇAS NÃO PRECISAM CONSUMIR O MUNDO ADULTO.

 A CRIANÇA É QUEM NOS MOSTRA COMO SEGUE SEU DESENVOLVIMENTO E É PRECISO ESTAR ATENTO A ISSO, MAS SABER UM POUCO SOBRE O DESENVOLVIMENTO SEXUAL PODE NOS AJUDAR NOS DESAFIOS DIÁRIOS.

sex4

 SEXUALIDADE DESDE SEMPRE

QUANDO A CRIANÇA NASCE, O CORPO TODO É ERÓTICO – NÃO É À TOA QUE ACHAMOS OS BEBÊS TÃO “GOSTOSINHOS” – DO CONTRÁRIO NÃO SERÍAMOS CAPAZES DE ATENDER À NECESSIDADE DE PROXIMIDADE FÍSICA E MENTAL DEMANDADA POR ELES A FIM DE SE SENTIREM SEGUROS E AMADOS. NOS DOIS PRIMEIROS ANOS, EMBORA TODO O CORPO SEJA SENSÍVEL – RECEPTIVO, A CRIANÇA BUSCA ATIVAMENTE DESCOBRIR O MUNDO PRINCIPALMENTE ATRAVÉS DA BOCA. MAS ANTES MESMO DE UM ANO DE IDADE, JÁ TATEIA SEU CORPINHO EXPERIMENTANDO QUAIS SENSAÇÕES ACONTECEM.

 POR VOLTA DE UM ANO E MEIO OU DOIS, A CRIANÇA COMEÇA A DESCOBRIR, ATRAVÉS DOS ESFÍNCTERES, QUE EXISTE UM MUNDO EXTERNO E UM INTERNO E VAI VERIFICAR QUAIS FORÇAS OU HABILIDADES É CAPAZ DE UTILIZAR PARA CONTROLÁ-LOS. É AÍ QUE ESTÁ A ORIGEM DE SUA AUTONOMIA E, PARA DESCOBRI-LA, PRECISA ENFRENTAR E RECONHECER SEUS LIMITES.

 É A PARTIR DOS 3 OU 4 ANOS QUE COMEÇA A QUERER DESVENDAR OS MISTÉRIOS DA VIDA, PRECISA DIFERENCIAR SUAS FANTASIAS DA REALIDADE. É A FASE DOS MEDOS E DAS CURIOSIDADES, INCLUSIVE SEXUAIS. AS CRIANÇAS DESTA IDADE QUEREM ENTENDER COMO A GENTE EXISTE – DE ONDE A GENTE VEM E COMO A GENTE MORRE, PORQUÊ AS COISAS OU PESSOAS SÃO DIFERENTES – MENINOS TEM PÊNIS, MENINAS TEM VAGINA – E MANIPULAM SEUS PRÓPRIOS ÓRGÃOS COM MAIS FREQUÊNCIA. AQUI ELAS POSSUEM CONSCIÊNCIA DE SUA IDENTIDADE SEXUAL E POR ISSO EXPRESSAM PREFERÊNCIAS POR AMIGOS OU PAIS, MESMO INVERTENDO-AS OCASIONALMENTE.  ELAS PARECEM “MINI-ADOLESCENTES” – ORA DISTRIBUEM AMABILIDADE E ALEGRIA, ORA SÃO CHEIAS DE “NÃOS” – MOSTRAM CIÚMES, PREFERÊNCIAS POR UNS E OPOSIÇÃO AOS OUTROS.

 AOS 5 ANOS A CRIANÇA JÁ POSSUI UM MELHOR AUTOCONTROLE E MAIS RECURSOS VERBAIS PARA EXPRESSAR SUAS DÚVIDAS E SENTIMENTOS. ENTÃO, REFAZEM SUAS PERGUNTAS BUSCANDO ENTENDER MAIS INTELECTUALMENTE SUAS CURIOSIDADES. EMBORA ELAS BUSQUEM SE SEPARAR PARA BRINCAR CONFORME O SEXO, AINDA NÃO FORMAM O CLUBE DA LULUZINHA E DO BOLINHA. AS MENINAS AINDA EXPERIMENTAM SER MOLECAS, BEM COMO OS MENINOS EXPERIMENTAM SEU LADO FEMININO – E PRECISAM DESTAS OPORTUNIDADES EXATAMENTE PARA CONHECEREM SUA IDENTIDADE SEXUAL. TANTO QUE ESTABELECEM NORMAS MAIS RÍGIDAS PRINCIPALMENTE NAS BRINCADEIRAS, MESMO QUE NÃO CONSIGAM CUMPRI-LAS; MOSTRAM-SE MAIS EXIGENTES.

A PARTIR DOS 6 ANOS DE IDADE AS CRIANÇAS POSSUEM MAIS DESEJOS INTELECTUAIS DO QUE SEXUAIS, ASSIM, SEPARAM OS GRUPOS DE MENINAS E DE MENINOS PARA “APARAR” MELHOR SUA IDENTIDADE SEXUAL NA BUSCA PELA AUTOCONFIANÇA.

 SE TEMOS A RESPONSABILIDADE DE EDUCAR AS CRIANÇAS, A SEXUALIDADE CERTAMENTE É UM TEMA QUE DEVEMOS ABORDAR, POIS O DESENVOLVIMENTO SAUDÁVEL DELA FAVORECE O DESENVOLVIMENTO EMOCIONAL E INTELECTUAL DA CRIANÇA.

sex5

 DÚVIDAS E DICAS

– QUAIS TERMOS USAR?
SE A FAMÍLIA NÃO TEM PALAVRAS DE USO PRÓPRIO, COMO PIPI, PIRIQUITA ETC. PODE USAR OS TERMOS CIENTÍFICOS COMO PÊNIS E VAGINA.

– POSSO TOMAR BANHO COM MEU FILHO OU FICAR NU DIANTE DELE?

SE ESTE FOR UM HÁBITO DA FAMÍLIA, SIM, DESDE QUE VOCÊ SEJA CAPAZ DE LIDAR COM NATURALIDADE DIANTE DOS COMENTÁRIOS, PERGUNTAS E TOQUES. ENTRETANTO, DEPENDENDO DA ALTURA DA CRIANÇA, O FOCO VISUAL DELA SE TORNA OS ÓRGÃOS GENITAIS DO ADULTO E, NUM BANHO, POR EXEMPLO, ISSO PODE DESVIÁ-LA DE OUTRAS QUESTÕES DO SEU DESENVOLVIMENTO FAVORECENDO O ENFOQUE NA SEXUALIDADE.

– COMO EXPLICAR A ORIGEM DOS BEBÊS?

NADA DE INVENTAR HISTÓRIAS DE CEGONHAS, ANALOGIAS OU METÁFORAS – ELAS SÓ SERVEM PARA AMENIZAR A NOSSA ANSIEDADE E AUMENTAR A DELAS. MAS TAMBÉM NÃO É PRECISO DESCREVER O ATO SEXUAL.
BASTA DIZER, POR EXEMPLO, QUE O PAI COLOCA UMA CÉLULA NO CORPO DA MÃE E QUE ESSA CÉLULA VAI CRESCENDO E FORMANDO UM BEBÊ ATÉ QUE ELE POSSA NASCER. EXISTE NA MÃE, UM BURACO ESPECIAL PARA O BEBÊ SAIR.

– COMO REAGIR DIANTE DAS MASTURBAÇÕES?

AS CRIANÇAS ATÉ 6 ANOS MANIPULAM SEUS ÓRGÃOS SEXUAIS COMO FORMA DE DESCOBRIR SUAS SENSAÇÕES E PRAZERES. A MASTURBAÇÃO MESMO, ENQUANTO ATO SEXUAL INTENCIONAL DE PRAZER, SÓ ACONTECE NA PRÉ-ADOLESCÊNCIA. NUNCA DEVEMOS AMEAÇAR DIZENDO, POR EXEMPLO, QUE A MÃO VAI CAIR, MAS DEVEMOS ALERTÁ-LAS PARA NÃO SE MACHUCAREM E INFORMAR QUE É ALGO ÍNTIMO, DO QUAL OUTRAS PESSOAS NÃO DEVEM PARTICIPAR, POR ISSO DEVE SER FEITO EM LUGAR E MOMENTO PARTICULAR.

EXISTEM TAMBÉM ALGUNS LIVROS INFANTIS QUE NOS AJUDAM A EXPLICAR E CONVERSAR SOBRE O ASSUNTO, COMO “DE ONDE EU VIM?”.
 

Bibliografia:
LOBO, Luiz. Escola de Pais – Para que seu filho cresça feliz. Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 1997.
NUNES, César & SILVA, Edna. As manifestações da sexualidade da criança. Campinas: Século XXI, 1997.
SILVA, Maria Pereira da (Org.) Sexualidade começa na infância. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2010.

Boletim Especial Set/12 – Memórias da Educação Infantil

“- Myroca! Myroca! O Beto é de verdade?” Sim, ele é nosso amigo do Thema. “Não! Myroca … Assim, oh! De carne e de osso?” – perguntava uma criança beliscando seu bracinho.

 Nas memórias de uma escola existem muitas histórias, que tem um valor enorme para cada educador que passa por ali.

 Muito cedo o “dom” de educar já tomava espaço em meu coração, este desejo de estar próxima das crianças, criar um espaço em que pudessem sentir o quanto as queria por perto, de um desejo simples de uma sala de aula surgiu uma missão muito maior: “uma escola”. O trabalho, os espaços conquistados, os aprendizados adquiridos, cada criança que passou, que cresceu conosco, que levou em sua memória aprendizados que vão refletir por toda sua vida. Foram 33 anos vida, dedicados ao magistério.

 Hoje, lendo as memórias das educadoras do Thema, como puderam ler também, é que escrevo um pouquinho do que tenho em minhas memórias.

 Descobri o meu tempo de parar… Talvez porque a cada ano vão embora alguns para continuarem suas trajetórias de desenvolvimento e chegam outros cheios de esperança para iniciarem seus aprendizados. E, assim, vai acontecendo com adultos e crianças.

 Pais precisam saber a hora em que devem recuar para que os filhos cresçam. Tem momentos que precisamos fazê-los entender que a confiança que temos por eles é verdadeira e sem medos. Contudo, assumem o mundo adulto levando com eles a credibilidade e otimismo com que foram criados.

 Não estou longe, estou por perto, ministrando todo meu amor, carinho, por um ambiente que recebe os seres humanos que mais me encantam, as crianças.

 Deixei com as crianças do Thema quem eu vi e pude presenciar amar a profissão de educar, quem eu vi os olhos brilharem por cada dia aprender mais sobre o que fazer, como fazer e como vale a pena, por elas, crianças, continuar a fazer.

 Certa de que as profissionais que estão à frente do Thema são firmes, verdadeiras, livres, alegres, determinadas, capazes de perceber o que de mais importante é necessário na educação dos pequenos. Elas estudam, buscam caminhos, se abrem para novos aprendizados, vivem intensamente as maravilhas e as dificuldades da educação.

 Para elas digo: continuem, se apeguem aos pequenos, tenham em mente o mais importante dos objetivos do Thema, adquiram procedimentos que sejam favoráveis ao desenvolvimento das crianças, olhem para a criança como nosso maior tesouro da educação.

 Afinal, por que acham que não desistimos?

 Deus abençoe esta missão de Educar permitindo que princípios e valores consistentes sejam metas nesta tarefa. Estou de olhar atento e coração sensível a cada movimento do Thema.

 Memórias fraternas,

 Myroca

Boletim Set/2012 – Memórias da Educação Infantil

As memórias da educação infantil são tão potentes
que são capazes de mudar a nossa maneira de ver o mundo. Paula Franco, diretora pedagógica.

Atendendo aos pedidos dos pais leitores, o boletim informativo está de volta e com novidades. Acontecimentos, eventos e datas especiais continuarão sendo apresentados nas redes sociais (site da escola, facebook e blog). Aqui no boletim, teremos temas do interesse de educadores e pais e a cada mês um assunto diferente será abordado. Assim, nada melhor do que retornar lembrando-se de fatos importantes. Memórias da educação infantil, das crianças e educadores da escola. Afinal, tudo que temos de mais valioso em nossa vida são as memórias do que vivemos.

HISTÓRIAS ENGRAÇADAS

Certa vez, uma educadora disse que essa é a profissão mais feliz do mundo. E realmente, tendo a oportunidade de acompanhar a trajetória desses pequenos, sabemos o quanto esta é recheada de casos engraçados. Como dizem os mais “curiosos”, eu daria tudo para ser um mosquitinho e ouvir o que as crianças tanto falam.
Depois de ir para a horta com as crianças, couves foram colhidas para fazer um refogado. Indo para a sala, uma criança comenta com a outra: pegamos couve na horta para fazer um resfriado!. Auxiliar Juliana
Buscando maneiras para não ir embora do Thema ao final do 1° ano, uma criança entra na secretaria e pergunta: posso deixar meu currículo aqui? É que eu tenho observado que o tio Luis anda meio cansadinho e acho que a gente pode dividir as aulas de futebol. Professora Ana Paula
Durante a rotina da manhã, saímos do parque para lavar as mãos e almoçarmos. Auxiliei as crianças nesse momento e fomos andando para o refeitório sem fazer trem, uns foram na frente, outros ficando mais atrás. Ao contar as crianças para colocar os pratos percebi que estava faltando uma. Procurei pela escola toda até que a achei no banheiro. Ela estava trocando a roupa, porque disse que estava muito calor, mas o que chamou atenção é que ela pegou o saquinho no zíper ao lado da mochila, dobrou (do jeitinho dela) a roupa suja e guardou no saquinho separado da roupa limpa. Não consegui nem chamar a atenção pelo fato dela ter saído de perto do grupo depois de tanto cuidado. Sentei ao seu lado e esperei que se trocasse toda e arrumar sua mochila, auxiliando apenas no fechar do botão do short. Professora Lisiane
Em um dia de intergrupos de brincadeiras folclóricas, foi oferecido um lanche diferente do cardápio. Porém, as crianças do 1° Ano encontraram um grande desafio para degustá-lo: comer milho na espiga sem os dentes. Muitas crianças nessa época já tinham perdidos alguns dentes, principalmente os da frente. E, para não deixar de se deliciar com o milho, enquanto comiam faziam variadas caretas e manobras. Enquanto alguns se divertiam observando os outros amigos, uma delas, muito chateada, fez o seu desabafo: é muito difícil ser banguela! Eu não consigo comer nem maçã, nem milho. Tempos depois, ela se deu por satisfeita por ter conseguido comer o milho de uma única espiga. Professora Ariane Frasson
MEMÓRIAS DA COORDENAÇÃO
diretora pedagógica

 Atualmente atuo como diretora da escola, tarefa difícil, gostaria de aproveitar esse espaço para contar um pouquinho da minha história, que é também a história do Thema… Minha família é de Minas Gerais, vim para Campinas ainda bem pequena, minha mãe, Myroca, uma grande educadora, começou a trabalhar num berçário e, após algum tempo, tornou-se proprietária, iniciou então uma jornada que resultou numa escola de Educação Infantil. Desde criança participei de toda a construção do Thema, que vocês conhecem hoje. Trabalhei em curso de férias, auxiliei professoras, brinquei e dei aula para muitas crianças que, hoje, já têm filhos e alguns cá estão.

Em 2001, iniciei o curso de pedagogia na Unicamp, após muitas dúvidas essa decisão foi tomada com o apoio de minha mãe que despertou em mim o amor (vejam bem, amor, pois a paixão sabemos que acaba) pela educação. Assim, comecei de fato a trabalhar como educadora do Thema, atuei como auxiliar de Maternal, professora de G1, G5 e coordenadora pedagógica.

 Em 2009, iniciamos uma nova jornada, em decorrência de alterações legais (nosso antigo pré/G5, passou a ser 1ºano do fundamental) e movidas por ideais ligados à infância e à valorização dessa, entramos com um pedido de regularização na Delegacia de Ensino, e para nossa maior surpresa, conseguimos autorização para ter o Ensino Fundamental. Assim, um dia de cada vez, com muito estudo e preparo, temos a intenção de ampliar o Thema até o 5ºano.

 Muitos são os desafios que já superei em minha jornada e muitos ainda estão por vir, afinal escolhi uma profissão que se transforma a cada dia. Estar atenta ao mundo, sociedade, culturas e conhecimento é fundamental para conseguir vislumbrar possíveis mudanças pertinentes e críticas, capazes de contribuir para uma formação consistente de cada ser que habita o Thema.

Sabendo que o ato de se autoavaliar não está diretamente relacionado ao tempo de experiência e sim a uma capacidade de reflexão e análise, que se distancia da prática e passa a ver o erro como um processo de aprendizado, assumi em 2012 a direção da escola. Preparada? Será que algum dia estaria? Mas, o que posso garantir a cada um de vocês, que colocam em minhas mãos e de toda a equipe maravilhosa do Thema – que a cada dia aumenta e se qualifica, o que vocês tem de mais precioso, que farei sempre o melhor, respeitando os ideais e valores preconizados pela filosofia e história do Thema.
Sabendo que “para confirmar cientificamente a verdade, é preciso confrontá-la com vários e diferentes pontos de vista. Pensar uma experiência é mostrar a coerência de um pluralismo inicial.” (Bachelard, 1996, p.10). Assim, conto com uma equipe de coordenadoras e professoras que contribuem com a construção da educação realizada no Thema.

Paula Franco

coordenadora geral

Dizem que são pelas andanças, altos e baixos da vida que aprendemos a lidar com as mais variadas situações. Acredito que eu seja assim. Nasci em Guaratinguetá, cursei o magistério em Aparecida, faculdade em Lorena, especialização em Campinas e pós-graduação em São Paulo e já trabalhei com realidades bem diferentes da qual estou hoje, em uma obra social e em uma creche. Assim, gosto de olhar para trás e ver o quanto já aprendi e como tenho aproveitado meu tempo. Acredito que não todas, mas algumas pessoas já nascem apaixonadas por aquilo que se dedicam a fazer e o tempo só faz isso aumentar. Esse é meu caso. Nasci apaixonada pela educação, não dos grandes, mas dos pequenos. O tempo me levou à descoberta do trabalho na educação infantil. Tempo para ouvir e escutar, tempo para olhar e observar, tempo para ensinar e aprender…

 O tempo também me mostrou que a distância da família e pessoas queridas me fez a passar a ter outro olhar em relação a minha vida. Se estou me dispondo a morar longe da família, que seja para valer a pena então. Trabalhando no Thema desde 2006, posso dizer que aqui minha família aumentou. Afinal, não somente eu, mas tantas outras pessoas passam a maior parte do seu dia no trabalho. Mas, este não é um trabalho qualquer, em qualquer lugar. É um trabalho com a educação dos pequenos e no Thema. Quanta responsabilidade não? Ou melhor, que maravilha!

 A cada ano, tenho acompanhado e participado das transformações da escola. Maior espaço físico, autorização para o funcionamento do Ensino Fundamental, nova organização da coordenação e direção. Mas, mesmo com toda essa estrutura, se eu não acreditasse na educação, de nada adiantaria. Você sabe o que é ser um educador? Dentre tantas coisas, é acordar de manhã sabendo que à sua espera você terá crianças que acreditam naquilo que você diz, que esperam você de pés descalços para brincar na areia, para ser a filhinha na brincadeira de casinha, que pede ajuda para escrever algo ou amarrar o cadarço do tênis… Por isso, é importante pensar não somente na professora que está à frente do grupo, que tem todo o preparo pedagógico das propostas e projetos, mas também de toda a equipe. Como falar, atender as crianças da melhor maneira possível? Esse é um desafio que temos a cada dia. Agora, nessa minha nova etapa, minha preocupação não é somente com um grupo, com as crianças do meu grupo. Minha preocupação é com a formação das educadoras que, de uma maneira e de outra, participam e são responsáveis pela qualidade do nosso trabalho, das nossas crianças.

 Ser pedagoga é assim: cada coisa precisa de um tempo para acontecer. Mas não podemos esperar que algo aconteça sem nossa ação. Depois de anos buscando ser uma professora de qualidade, é chegada a hora de pensar na formação dos profissionais que atendem as crianças. É preciso estudo, trabalho em equipe, saber ouvir e falar, pois a educação não é algo que se possa dar por pronta e finalizada. Por isso o Thema e todos aqueles que fazem parte dele – funcionários, pais e crianças – estão sempre em transformação. Transformação que deixam marcas, muitas lembranças, que permanecerão por muito tempo, quem sabe a vida toda. São questões que estarão sempre entrelaçadas, amarradas. Posso dizer como é bom olhar para trás e ver quantas marcas já foram deixadas, mas sem dúvida, é tempo de pensar naquelas que ainda estão por vir. Mais do que estar em uma equipe, é saber que faço parte de uma equipe que acredita na qualidade do trabalho para a Educação Infantil, que pensa não somente na formação das crianças, mas também dos seus profissionais.

Ana Paula

coordenadora ciclo I

O que posso trazer em memória, senão pelos olhinhos brilhantes que me olham diariamente com desejo de novas descobertas?

 Trabalho no Thema como educadora há oito anos e atuo como coordenadora pedagógica pelo terceiro ano. Tudo começou por um forte desejo de novas descobertas… Quando criança eu desejava ser cientista, pode acreditar! Eu desejava investigar o mundo sem saber ao certo o que.

 Conclui o Magistério, fiz 2 anos de teatro, terminei a Faculdade de Pedagogia e a partir daí, comecei a dar significado a valores em minha formação. Trabalhei como voluntária em um hospital com crianças, cujo principal valor era a vida, fui professora do 1° Ano em ONG, onde as crianças tinham “fome de aprender e vontade de comer” e, depois, vim ressignificar o motivo de ser educadora, tendo oportunidades aqui no Thema. Ressalto a palavra oportunidades, pois desde o início, pude contar com profissionais que acreditaram em meu trabalho e muito mais do que isso, alimentaram meu forte desejo de investigar o mundo com as crianças. Um detalhe nesta época chamou minha atenção: diferente de outros lugares, aqui no Thema, toda proposta era significativa para os pequenos e, mais do que a paixão por educar, os profissionais se envolviam por amor em cada situação de aprendizagem e todos se empenhavam muito para isto, a começar pelo brilho do olhar da Educadora e Diretora Myrian. Os olhos dela, sempre brilharam para os olhares das crianças e consequentemente, esses se refletiam nos nossos e prosseguem nos dias de hoje. Entrei no Thema como professora do 1° Ano, depois trabalhei com crianças do G1, G2 e por fim, com crianças de Berçário e Maternal e este último grupo instigou profundamente o desejo de possibilitar que os passos dos pequenos investigassem e se relacionassem com o mundo que os cercam, afinal, lidamos com a formação de pessoas e não somente com o cuidado das crianças.

 Fui coordenadora das aulas extras, recreação e hoje, estou na coordenação do Ciclo 1. De educadora, passei a ser também formadora – profissão que muito me instiga, pois trabalhar diretamente com a formação de professoras é um grande desafio! Trata-se de um caminho difícil que exige esforço, energia, muito trabalho e às vezes sofrimento, mas que também oferece encanto, surpresa, alegria e satisfação. É um caminho que demanda tempo, como o tempo que as crianças têm e os adultos não têm ou não querem ter. Este tempo permite ainda a busca pelo significado das experiências com as crianças, as quais deixarão para sempre, suas marcas assim como minhas memórias. Junto aos desafios como educadora, em breve, experimentarei SER MÃE – com certeza, esta experiência intensificará a prática e o amor, que é a essência da escolha de toda a equipe THEMA.

 Fátima Tarallo

coordenadora ciclo II

Estou, aqui, frente a um grande desafio: o de escrever minhas memórias de educadora. Só de pensar na palavra MEMÓRIA, tenho em minha cabeça uma vastidão de pensamentos, lembranças e sentimentos. Afinal, para mim, a memória nada mais é do que um valioso livro de nossas vidas. Um livro que preenchemos diariamente, repleto de anotações, esboços, vivências, percepções, um lugar onde ficam registrados os fatos marcantes da nossa existência. Ter que resgatar minhas memórias, é ter que folhear este livro e visualizar as marcas de minha vida. Marcas de uma paulistana, que saiu aos 18 anos da casa dos pais para percorrer o sonho de se tornar pedagoga.

 São muitas as memórias, tantas que ficam difíceis de elencar. Memórias do meu primeiro contato como professora, ao sentar com meus irmãos nas brincadeiras de escolinha e compartilhar minhas descobertas. Memórias de crescimento e amadurecimento, quando passei em uma universidade pública e passei a viver sozinha, a estudar, sem ter alguém me cobrando por isso! Memórias das dificuldades ao assumir pela primeira vez como professora, uma sala de aula de crianças de 8 anos, em que os pais subestimavam a minha capacidade por me acharem muito nova e, também, memórias de missão cumprida, por ter conquistado esses mesmos pais. Mas, para mim, as memórias mais especiais, são dos rostos vibrantes e alegres das crianças, ao compartilharem seus conhecimentos e, acima de tudo, saber que fiz parte desse processo.

 Ao estar com as crianças tive um enorme aprendizado que não constava em nenhum dos meus livros teóricos: o conhecimento de que nós educadores mais aprendemos com elas do que realmente ensinamos. Com as crianças, aprendemos que o tempo, o conhecimento, as descobertas, experiências e brincadeiras são amigos inseparáveis e, por isso dão um sabor diferente a vida. Não é a toa que a infância é uma etapa inesquecível!

 Talvez por saber que as crianças pequenas são mais sensíveis e intensas às delicadezas da vida, que acabei me tornando uma amante e defensora da Educação Infantil. Antes, como professora, um dos meus principais intuitos era o de preservar e propiciar uma infância de qualidade. Atualmente, como coordenadora pedagógica, esse objetivo ainda continua, só que agora com uma intensidade muito maior.

 Confesso que não foi fácil e, ainda não é, essa transição de professora para coordenadora. Somente neste instante, veio-me a mente muitas memórias de desafios que enfrentei e enfrento nessa nova função. Mas, o que me motiva a continuar e ultrapassar cada um desses desafios que, muitas vezes, fazem-me pensar no retorno à sala de aula, é saber que na coordenação, conseguirei propagar, lutar e garantir os direitos das crianças de serem realmente crianças e terem uma educação de excelência. Sei que não é uma tarefa nada fácil, porém já superei muitas marcas de dificuldades na minha trajetória pessoal e profissional, por isso, tenho certeza de que essa será mais uma a fazer parte das minhas memórias de superação e, porque não dizer também, de otimismo!

 Camila Izoli

coordenadora NEE

Iniciei a faculdade em 2005, a área da educação sempre me chamou muito a atenção, com isso, sem dúvidas, logo ingressei no curso de Pedagogia. Durante os primeiros meses de estudo, ainda não havia escolhido a área a seguir, mas aos poucos o interesse pela Educação Inclusiva começou a se tornar mais nítido. No entanto, com o passar do tempo essa vontade ficou “incubada”, pois muitas novidades e opções começaram a surgir: educação infantil, ensino fundamental, educação de jovens e adultos. No último ano de faculdade conheci a escola Thema por meio de uma mãe e em fevereiro de 2007 iniciei na escola como professora auxiliar. Em 2008 tive minha primeira turma, como professora no Grupo 1, com crianças de 2 e 3 anos. Em 2009 novamente assumi o Grupo 1, confesso que foi uma experiência incrível, pois tive o prazer de participar de momentos muito marcantes dessas crianças, como a retirada de fralda, o aumento do controle corporal, assim como a ampliação do repertório e troca de algumas palavras pelas primeiras frases. Com essa turma tive grandes experiências e a vontade de conhecer e o interesse pela inclusão ressurgiram. No ano seguinte, passei a ser professora do Grupo 3, no qual estou hoje com minha terceira turma (2010, 2011 e 2012).

 Em 2011 comecei, em parceria com a direção da escola, um trabalho mais direcionado com uma criança do Grupo 3, pois sentíamos a necessidade de estimular de uma forma mais individualizada, assim como ter também informações mais específicas sobre o conhecimento dessa criança. A experiência rendeu informações valiosas, e com isso meu interesse chegou ao auge. Ao final de 2011 a direção propôs o surgimento de um projeto que teria como objetivo conhecer de maneira aprofundada e específica cada criança e seus conhecimentos. Em 2012 iniciei uma pós graduação em Educação Inclusiva, hoje no período da manhã me encontro focada nesse projeto e no período da tarde com uma turma de Grupo 3.

 Com esse projeto, procuro conhecer as crianças e ao mesmo tempo ajudar e trocar ideias, sugestões e informações com as professoras. Estamos com muita vontade de fazer o melhor, porém por ser recente, o projeto ainda vem passando, e certamente ainda passará por diversas mudanças. Acreditamos que as crianças precisam conviver umas com as outras e vivenciarem todas as experiências que seus grupos passam. Com isso nosso projeto foi estruturado para atender as crianças em períodos opostos, nosso maior objetivo é ampliar suas experiências e de maneira alguma restringi-las.

 O conceito de diversidade remete-nos ao fato de que todos os alunos têm necessidades educativas individuais próprias e específicas para ter acesso a experiências de aprendizagem necessárias à sua socialização, cuja satisfação requer uma atenção psicológica individualizada. Holt, 2006

 Cibele Santos

coordenadora de aulas extras

Comecei meus estudos em Dança aos três anos de idade na cidade de Piracicaba, interior de São Paulo, onde nasci. Desde então, venho dançando sonhos, prazeres, memórias, dores, descobertas, superações. A Dança tem me acompanhado em todas as etapas da minha vida, sendo muitas vezes motivo de grande prazer e, em outros, de profunda inquietação uma vez que percebo que ela reflete diretamente a autoimagem e a relação do indivíduo com suas emoções, valores, cultura, enfim, sua relação com o outro e consigo mesmo.

 Dos três aos dezoito anos de idade participei de diversos grupos de Dança em Piracicaba e fiz cursos em outras tantas cidades buscando com isso diferentes técnicas e estéticas corporais. A sensação de estar em palco, diante da plateia e num “aqui e agora” definir um ano todo de trabalho, de ser de fato, mesmo que por um breve momento, uma pessoa sensivelmente potente, capaz de emocionar, tocar e me relacionar mesmo que subjetivamente com tantas pessoas que eu não conhecia até então, era de fato, fascinante para mim.

 Tive muitos professores amorosos, grandes mestres da arte e da vida, como também, me deparei com personalidades enigmáticas como alguns professores que vestiam seus papéis de carrasco em sala de aula, que humilhavam seus alunos, que exigiam privações, que promoviam angústia e baixa estima, gerando constantes crises nos jovens bailarinos, tudo em nome, segundo eles, do primor técnico. Essas experiências me fizeram rever o papel do educador na formação de um indivíduo e me fazem uma profissional que busca sempre trabalhar com respeito, com criatividade, liberdade e sensibilidade.

 No ano de 2005 inicio meus estudos acadêmicos, cursando Dança (Bacharelado e Licenciatura) na UNICAMP. A escolha por esse curso foi justamente por essa ânsia de compreender melhor a dança e tudo que ela significava para mim. Começa então, junto da graduação, minha grande paixão pela pesquisa, pela educação por meio da arte, pela observação do corpo como potencia de vida e de criação e a busca por uma dança mais humanista, sensível e que é capaz de possibilitar ao bailarino um autoconhecimento peculiar.

 Logo depois que me formei (2009), fui convidada pela Myrian para organizar/criar a festa de encerramento daquele ano. No ano seguinte (2010), a professora de dança do Thema engravidou e fui convidada a assumir as aulas de balé. Nessa mesma época, eu já era professora de Balé Clássico e Dança Contemporânea em outras três escolas de Dança em Campinas. Agora, nesse ano de 2012, além de dar aulas de balé, de organizar e dirigir as festividades do Thema (Festa Junina e Festa de Encerramento) fui convidada pela Paula para assumir a coordenação das aulas extras e confesso estar muito feliz com essa nova experiência. É durante as minhas aulas, no contato com a criança e com essa dança criativa (metodologia que venho desenvolvendo) que tenho descoberto o grande prazer de ensinar, de proporcionar às crianças uma atitude mais criativa diante da vida, de enfatizar as boas relações, os bons encontros, as boas experiências. É na coordenação que tenho podido entrar em contato com profissionais maravilhosos, organizando estratégias para poder aproveitar o máximo de cada um deles, formando, enfim, uma equipe sólida que busca dentro de suas especificidades, valorizar a educação integral da criança.

 Com o Mestrado em Artes da Cena – UNICAMP (2011 – 13) experimento em meu corpo questões que são importantes para o estudo em dança: observação da trajetória artística (dar valor ao “tempo de travessia” do indivíduo), questões relacionadas à imagem corporal, processos criativos, simbologia e memória do corpo.

 Minha busca nesse momento como bailarina, pesquisadora e educadora é promover uma nova forma de ensinar, experimentar e vivenciar a arte, podendo ser para meus alunos, para o público que prestigia minha dança, para os professores que tenho o privilégio de orientar, para os futuros leitores de meus artigos e teses e porque não, para mim mesma dentro do meu processo criativo, alguém que se interessa pelo que mobiliza o ser humano e que entende o autoconhecimento como o grande caminho para o desenvolvimento integral do homem. Deixo assim, de ser vítima do acaso, de um sistema rígido, para ser então, protagonista da minha própria história.

 Natália Alleoni

FUNCIONÁRIOSMEMÓRIAS DOS FUNCIONÁRIOS

Causos da vovó, história para boi dormir, senta que lá vem história… Esses são alguns ditados que podemos usar para lembrar histórias que aconteceram. Assim, aqui no Thema, quem está chegando agora ou quem já trabalha há algum tempo, lembra de algo para contar. Muitos acontecimentos estão gravados na memória e o melhor, nos divertimos muitas vezes com as mesmas coisas boas como se fosse a primeira vez.

A união faz a força. Depois de um dia de trabalho, no horário de maior movimento de saída das crianças, uma grande chuva começou, na verdade uma tempestade. Ficamos no escuro, em busca de lanternas e velas e organizamos rodas de histórias e músicas até a chuva diminuir. Professora Cristiane

Envolvida com as atividades das crianças do meu grupo, fiquei em sala organizando materiais, não percebendo que todas as crianças já haviam ido para casa e as demais salas estavam fechadas, só escutei o barulho do portão, que estava para ser trancado. Por pouco, quase fico na escola para a rotina do dia seguinte. Professora Ana Paula

Lembro de ajudar uma criança a alimentar-se no horário do almoço. Eu conversava e pouco a pouco oferecia a refeição para que ele não ficasse com ânsia, pois estava começando a ingerir alimentos sólidos. Depois de semanas, oferecer a refeição era um momento muito prazeroso, pois a criança sempre dava belos sorrisos. Auxiliar Viviane

Uma coisa importante que aconteceu comigo foi quando uma criança que dizia poucas palavras começou a me chamar de tia Fe. Recreacionista Fernanda

Um momento muito marcante no G4 foi a composição da música do projeto polos com as crianças e a professora Ana Paula. Foi de repente, voltando para a salinha depois de uma proposta de música. Com meu violão, o azulão, começamos a conversar e ter ideias e a música “nasceu”. O refrão da música é: vem comigo, vamos explorar, regiões polares vamos pesquisar. As crianças gostaram bastante. ADI Mayara

A tarefa de educar, o prazer de ensinar e a maravilha de auxiliar são preciosos valores. Observar um pequenino chorando é muito pesaroso, mas contribuir para que aquele choro se transforme em sorriso é um bálsamo para o coração. Essa preciosa tarefa de educar tem um valor que supera qualquer dificuldade e sacrifício em lidar com os pequenos. Professora Tais

Para mim, tudo o que acontece no Thema é emocionante, pois é a minha primeira experiência com crianças. E o que marca, sem dúvida, é ouvir uma criança que ainda não fala muitas palavras dizer nosso nome pela primeira vez. Também fui bem acolhida pela equipe de trabalho. Sem dúvida, escolhi a profissão certa. ADI Jéssica

Férias de julho. Passear com as famílias, amigos, idas e vindas. Reencontrar pessoas que há muito tempo não encontrava. Hora de fazer uma visita às crianças do curso de férias. Quando cheguei à escola e as crianças me avistaram, no corredor, começaram a gritar: “Tia, tia, você não sumiu. Você está aqui de volta”. Foi um momento emocionante, com abraço bastante forte. Professora Ariane Milagres

Algo marcante que presencio no berçário é o momento do encontro. Aquele pequeno instante em que as crianças se reconhecem, se olham. Mais do que isso, entrelaçam olhares, trocam carinho e afeto. É aquele momento em que a sua principal relação deixa de ser o brinquedo e passa a ser o amigo, é simplesmente mágico. No passar dos anos como professora, tenho visto essa relação se formando: o encontro, o começo de uma amizade. Lembro-me de tantas crianças, de tantos outros encontros e olhares que falam mais do que mil palavras. É gratificante presenciar o início do reconhecimento do outro, como o primeiro amigo na primeira infância. Professora Márcia

ilustração