Diário Reflexivo de uma professora

O que tenho sentido neste período de adaptação? 

Não posso falar do que não conheço, assim, hoje não conseguirei me exprimir de outra forma, a não ser escrever o que venho sentindo. 
Começo recorrendo ao nosso mestre Jean Piaget: “Não sou o que o meio fez de mim, sou o que fiz do que o meio fez de mim.”
Esta brilhante frase me faz refletir: O que fiz a cada novo obstáculo que a vida me apresentou? O que fiz com as perdas que sofri, com os sonhos que desejei, com as frustrações que presenciei, com a desvalorização profissional que a sociedade manifesta? Somos mais fortes depois das lutas.
Hoje me deparo fazendo o que sempre sonhei. Sou educadora de Berçário e me sinto honrada neste papel. Quando passo pela sala do Maternal e me deparo com as crianças que estiveram no Berçário no ano passado, pronunciando frases, com idades entre 1 ano e meio e 2 penso: “valeu a pena, aqui estão as sementinhas que plantei”. Isto alegra demasiadamente o meu coração, pois sei que o meu trabalho não foi em vão, e este é um mero detalhe de seus avanços.
Outro momento poético é ver as crianças do berçário socializando, buscando autonomia para as suas vidas, como se quisessem gritar: “Queremos ser livres!”
Contudo, alguns pais dizem que não querem isso para seus filhos… Vão até a escola e lá enxergam apenas o texto, sem entenderem o contexto. Mas me pergunto: Como avaliar uma escola? Como avaliar o trabalho de uma educadora em apenas uma semana (no caso da adaptação)? 
Neste tempo é quase impossível, afinal acredito na adaptação como processo, tanto para as educadoras quanto para os novos pais. Lembro-me perfeitamente de uma mãe dizendo que já estava partindo para o “plano b”, mas ela ousou confiar em deixar o seu filho e, hoje, sempre me deparo com ela, pelos corredores da escola esbanjando autonomia. 
Esta semana, tive um triste caso de adaptação, que após algumas ocorrências, a mãe desistiu de adaptar a criança e resolveu deixá-la com uma babá. Diante deste fato, tenho pensado nas perdas que esta criança terá, ou melhor, o que ela não experimentará? 
Provavelmente ela não saberá o gosto de se envolver em projetos e atividades planejadas, nem terá o prazer da interação com outras crianças da mesma faixa etária. A quem ela imitará? Com quem partilhará os seus brinquedos? Como lidará com o “não”? E ainda, haverá dificuldade em lidar com as frustrações, as quais são tão importantes para o seu desenvolvimento. Sabemos, que para a aprendizagem ter significado, a criança necessita da interação com o meio, ou seja, precisa ter o retorno de toda experiência vivenciada e não apenas o contato com um objeto.
Faço várias analogias, de mães que encontro no portão da escola, e que estavam tão ou mais angustiadas na adaptação de seus filhos, mas que souberam arriscar, dar um voto de confiança, e o mais importante – não se arrependeram, ao contrário, tecem elogios por encontrarem aqui, educadoras que acreditaram na autonomia de seus próprios filhos.
Mas repensando minha prática pedagógica, e este é o intuito deste texto, devo ter errado no momento em que abri sem medidas o meu campo de trabalho. 
Detalharei o caso para que meu leitor tenha total compreensão do que sucedeu.
Como de praxe, no primeiro dia de adaptação a mãe acompanhou a criança na sala do berçário, por uma hora, relatando como era a rotina de seu filho em casa. A criança por sua vez, não saiu de seus braços, por mais que eu me esforçasse para chamar a sua atenção.
Então, no segundo dia, logo que a mãe o entregou no portão, ele começou a chorar. A mãe foi orientada a aguardar um pouco até que eu o acalmasse. Rapidamente o acolhi e tirei-o da sala, levando-o para um ambiente tranquilo. Tentei colocá-lo ao chão para interagir com outros objetos, mas logo agarrou minhas pernas solicitando o colo. Dediquei-me a ele neste ambiente propondo várias possibilidades que nós, profissionais da educação conhecemos para acalmar a criança: chupeta, paninho de ninar, chocalho, músicas, histórias, danças, coelho de verdade, etc., mas naquele dia, nada adiantou. Voltei com ele ao berçário e dei-lhe um banho, pois naquela altura, ele e eu transpirávamos muito.
Ao entregá-lo todo cheiroso para a mãe, a criança já havia se acalmado. A mãe me perguntou como foi, e eu disse a verdade, que ele havia chorado, e só depois do banho consegui acalmá-lo. Eis que percebendo aquele coraçãozinho tão apertado daquela mãe, que perguntou se poderia entrar no dia seguinte, eu singelamente respondi que sim, e mais, entreguei um par de sapatilhas e disse a seguinte frase: “Fique à vontade para entrar no berçário quando desejar”.
Sinto que foi este o meu erro: misturar o campo de trabalho, com o campo afetivo. Devemos preservar nosso campo de trabalho, mesmo porque uma pessoa “de fora”, não tem um olhar pedagógico, e pouco compreende que é normal o bebê chorar, pois é a maneira pela qual ele se expressa, terá então, dificuldade em entender o ambiente escolar, e, a todo momento, fará comparações com a casa, se preocupando demasiadamente com os cuidados (o que também nos preocupa), mas diferente de uma educadora, enxergará sempre como uma mãe, podando muitas vezes, as oportunidades de crescimento daquele ser, afinal, por mais doce e tolerante que uma mãe se apresente, ela é sempre uma mãe, e é natural do instinto animal proteger a espécie, seu lado racional se coloca a favor da escola, seu lado sentimental coloca a criança de volta a seus braços.
Ninguém tem culpa nesta história, pois o desapego é a maior conquista dos seres humanos, então, o que diremos e faremos em relação aos nossos filhos?
Professora: Márcia R. M. Alves 
Grupo: Berçário 
04.03.12