BOLETIM REFLEXIVO JUN/13 – Todo mundo tem um nome: diga lá qual é o seu

BOLETIM REFLEXIVO copy3Assim que alguém engravida vem um monte de perguntas: “é menino ou menina?”, “como vai chamar?”.

E quando a criança nasce, cada um enxerga uma coisa: “nossa! é a cara do pai!”, “que graça, puxou a mãe”. E logo os comentários e as perguntas se voltam para a própria criança: “qual é o seu nome?”, “quantos anos você tem?”, “você já vai à escola”?

Dentre todos os questionamentos, apenas um é permanente e escutaremos para sempre, e a resposta será sempre a mesma:

 – TODO MUNDO TEM UM NOME, DIGA LÁ QUAL É O SEU!

 “Se um nome é propriedade exclusiva de um determinado sujeito,
seu sentido não se esgota com essa qualidade: confere-lhe um título
que faz dele alguém insubstituível” (Tesone, 2009, p.141).

Capturar1INDIVIDUALIDADE

O nome é o primeiro presente dado pelos pais a um filho e o único que ele poderá carregar eternamente consigo mesmo. Por isso, algumas vezes, sua escolha é tão difícil e certamente muito importante – ele será a principal forma de identificação daquela pessoa.

Para os habitantes da antiga Mesopotâmia, dar nome a uma criança era um ato de chamado à vida (Tesone, 2009). Nominar as pessoas é inseri-las em um mundo social, anunciá-las: o nome próprio diferencia a pessoa de um todo do qual ela faz parte, e, por isso, para se relacionar e se comunicar com esse “todo”, precisa ser identificada de uma forma específica.

Os nomes são as primeiras palavras com significado na aquisição de linguagem das crianças e eles ajudam-na a fazer o reconhecimento de si próprias e do mundo; é por meio da nominação que elas compreendem que são diferentes dos outros: a mamãe é a ‘Claudia’… eu sou o ‘Felipe, Tiago, Rafael’; a ‘Gabriela, Carolina, Mariana’ são minhas amigas…

O nome individualiza a criança, consagra sua originalidade e a história da sua escolha e seu significado o tornam único, assim como aquele ser humano.

 SIGNIFICADO DOS NOMES: DESEJOS E EXPECTATIVAS

O nome é a primeira inscrição simbólica do ser humano em que aparece o desejo dos pais (Tesone, 2009). A história da escolha de um nome é carregada de sentimentos e expectativas depositados na vida da criança. Essas histórias são quase como “profecias” a serem realizadas ou mesmo, em alguns casos ou momentos, a serem desmistificadas ao longo da vida da pessoa.

Os pais do Thema compartilharam conosco um pedacinho da história da escolha dos nomes de seus filhos e enquanto apreciávamos essas histórias, percebemos que eles consideram diferentes aspectos ou fatores neste processo de escolha, como a pronúncia, grafia ou sonoridade do nome; originalidade; apelidos; associações ou homenagens a pessoas conhecidas ou a personagens apreciados em filmes ou livros; resgates de lembranças ou experiências positivas; afinidade, gosto ou apreço pelo nome ou até gratidão pelo filho, além de diversos significados, tais como:

BELEZA, ALEGRIA, FELICIDADE, VIDA, FORÇA, DOÇURA, ESPERA, TRANQUILIDADE, ENERGIA, LUZ, SOCIABILIDADE, PUREZA, SABEDORIA, PRESENTE OU GRAÇA DIVINOS, INTELIGÊNCIA, SABEDORIA, PROTEÇÃO, OUSADIA, CORAGEM, DONS, SOBERANIA, GRACIOSIDADE, INDEPENDÊNCIA, FORÇA DE VONTADE, LIDERANÇA, DINAMISMO, SIMPLICIDADE, JUVENTUDE, NOBREZA, GENEROSIDADE, LUTADORA, VERDADEIRA, PRECIOSIDADE, SEGURANÇA ETC.

048TRABALHO PEDAGÓGICO COM NOMES

Além de ser a primeira forma de identificação da criança, o nome é uma palavra de escrita estável, ou seja, é semelhante em qualquer contexto. Assim, trabalhar com nomes em sala de aula na Educação Infantil facilita a memorização das letras oferecendo às crianças um repertório significativo e funcional. Além de representar a própria criança, o nome constitui uma marca que pode identificar seus objetos e suas produções, ou seja, é uma escrita que possui funcionalidade: há um sentido e uma motivação para escrever. Isto faz com que a criança atribua importância às letras, à escrita e à leitura.

Apropriar-se das letras neste contexto particularmente positivo, agradável e funcional confere grande importância ao uso pedagógico do nome no processo de alfabetização e letramento: é por meio dos nomes (e não mais da reprodução mecânica das letras como se fazia antigamente) que a criança faz o reconhecimento do valor sonoro das letras, desenvolve estratégias, cria hipóteses, faz comparações e associações a fim de, não só aprender a ler e a escrever, mas de reescrever e resignificar a si mesma:  a criança vai, literal e simbolicamente, reescrevendo seu nome e o significado atribuído a ele inicialmente pelos pais.

 PERCURSOS

A escrita da criança passa por algumas etapas até que ela escreva convencionalmente:

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– As crianças imitam a escrita rápida dos adultos produzindo garatujas.

 

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2 – Procuram alinhar os grafismos horizontalmente, ou seja, já possuem maior intencionalidade.

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3
– Aparecem símbolos discretos, as pseudoletras.

 

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 4 – Aparecem as letras, mesmo que de forma aleatória.

 

Untitled-75 – Depois, a criança memoriza a ordem das letras, passando a escrever seu nome mais convencionalmente.

Do mesmo jeito que a escrita tem um percurso, a leitura (que também chamamos de identificação do nome) tem também o mesmo processo:

1- Não há diferenciação parte-todo (em apenas uma letra do nome pode estar escrito todo seu nome; em todo o seu nome podem ser lidos vários nomes);

2- Tentativa de corresponder partes da escrita a partes do nome (assistemática: em algumas situações pode ler o S e dizer que ali está o “So” da Sofia);

3- Passa a corresponder as letras e as sílabas de emissão verbal sistematicamente;

4- Atribuição de valores sonoros estáveis às diferentes partes do nome (inicialmente apenas a primeira letra, depois ao restante; pode também passar a ler seu nome – Sofia, por exemplo – em tudo o que começa com S: “é o meu S”);

5- Análise fonética (leitura convencional: percebe que apenas aquela sequência de letras compõe seu nome).
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Capturar2DESENVOLVIMENTO E IDENTIDADE

Há um ponto em que todos os profissionais e especialistas que lidam com desenvolvimento humano concordam: os seis primeiros anos de vida são os mais importantes para a formação de qualquer pessoa (Lobo, 1997). As crianças fazem reformulações incessantes sobre tudo o que observam e sentem, principalmente sobre si mesmas nas relações com o mundo das coisas e das pessoas.

Nesta etapa de vida, alguns significados sobre a identidade da criança a antecedem baseados nas expectativas e desejos dos pais a respeito de seus filhos. Nos traços dos nomes, por exemplo, estão as marcas que os outros designam a nós (Tesone, 2009).

Por isso, é importante os adultos refletirem sobre como se referem à criança – quais apelidos ou nominações eles usam? Que características ou qualidades utilizam para descrevê-la. Uma palavra carrega uma imensidão de significados subjetivos a cada pessoa.

Capturar3Atribuições dadas com grande frequência (como por exemplo: “ele é assim mesmo – muito envergonhado, como o pai…”, “ela é muito inteligente, a criança mais inteligente da família”), apelidos depreciativos bem como elogios excessivos marcam fortemente a formação das crianças podendo influenciar de forma negativa seu desenvolvimento mental e afetivo, ou prejudicar sua autoestima especialmente quando usados pelos pais, pois suas atitudes e opiniões pesam muito mais do que a de outras crianças ou até outros adultos de menor referência. Lobo (1997) exemplifica estes efeitos negativos da seguinte forma:

“Bruno Bettelheim, a propósito, cita a história da Bela Adormecida. Quando ela nasceu a mãe convidou as fadas para o batizado. E não convidou a bruxa. Cada fada trouxe, como presente, alguma coisa capaz de fazer a criança feliz. Mas a bruxa lançou sua maldição sobre a criança e tudo o que as outras haviam oferecido não impediu que a menina caísse em sono profundo.” (p.88)

Temos o compromisso, enquanto educadores, de dar espaço para que as crianças reescrevam seus próprios nomes, construam e resignifiquem sua própria identidade de maneira criativa e autêntica.

REFERÊNCIAS

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LOBO, Luiz. Escola de Pais: para que seu filho cresça feliz. Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 1997.

TESONE, Juan Eduardo.  Inscrições transgeracionais no nome próprio. J. psicanal.,  São Paulo,  v. 42,  n. 76, jun.  2009 .   Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-58352009000100010&lng=pt&nrm=iso>. acessos em  26  jun.  2013.

Versão para impressão: http://www.themaeducando.com.br/site/noticias/arquivos/201307031525250.03%20-%20Boletim%20Reflexivo%20MaiJun%20-%20Nomes.pdf

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